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Lembranças

















ESPERANDO O TREM
Da esquerda para a direita : Charles, Runil, J David,Nelson e eu.
Estávamos na estação do Brás, esperando o trem para ir a praia.

LEMBRANÇAS QUE SURGEM
A gente fica velho e de vez em quando se surpreende com as próprias
recordações. Lá em uma noite , quando se perde o sono na madrugada
silenciosa, vem em nossa mente alguém que há muito não vimos. As
vezes eu sonho com personagens do passado, gente que por um certo
tempo conviveu comigo no ambiente de trabalho.

Outro dia sonhei com um amigo chamado Runil Santiago. Fazem por
volta de quarenta e cinco anos que não o vejo e nem sei noticias dele.
Pode ser que até ja morreu, porque a morte não escolhe idade. Ele
fumava descontroladamente, assim como todos os outros colegas.Eu
o conheci na decada de sessenta .Estava começando a minha vida
de desenhista em Saõ paulo. Tinha sido dispensado da primeira firma
e um amigo de pensão ajeitou para mim, na empresa que trabalhava.
Quando fui fazer a entrevista e o teste de desenho, fiquei conhecendo
o Runil.

Ele fazia questão de especificar bem que seu nome era com U. Ele
seria meu chefe por quase dois anos e meio. Nesse tempo fizemos
uma sólida amizade e com ele aprendi muita coisa sobre ar
condicionado. Uma vez cheguei a ir passear na casa dele e fiquei
conhecendo sua esposa e seu filho pequeno. Outra vez ,fomos a praia
com todos os desenhistas da seção.(foto acima)

Lembro que a empresa era de turcos e foi uma das melhores
firmas que trabalhei.Eles davam liberdade no trabalho e a
burocracia era mínima. Tinha um velho (diziam que era parente dos
donos) que aparecia por lá com um monte de relogios para vender a
prestação para o pessoal.Tinha a garantia da empresa se alguem não
pagasse. Na hora do café que era servido duas vezes por dia, davam
um pequeno copo de café com leite .

O casionalmente mandavam a gente viajar para atender
obras em outras cidades.Foi em uma dessas viagens que pela primeira
vez voei de avião, de São paulo a Londrina.Eu era na época bastante
novo e bastante alienado.Convencido e com deficiência de sabedoria.
Tinha a ansiedade da onipresença.Queria estar em vários lugares ao
mesmo tempo, e ficava com aquela sensação de estar perdendo alguma
coisa. Idéias estupidas de imaturo.

Um dia a empresa entrou em crise e fizeram um arranjo no departamento.
Ali começava a mudança em nossas vidas. Muitos se adaptaram e poucos
como eu, ficaram descontentes.Com isso passaram todos nos,( os desenhistas)
com outro chefe, um engenheiro. Aquele tempo chamavam engenheiro
de doutor. O Runil então ficou trabalhando só. O sistema de serviço
era do tipo que cada um tocava varias obras, desde a parte
de calculo ate´a montagem. A partir desse momento ele esfriou o
relacionamento com a gente. Senti que a nossa amizade tinha muito
de falso pela mudança rápida .

Não conversava mais com a gente e se alguém queria falar com ele o
tratamento era sêco. Hoje, entendo a situação dele. Deram-lhe um
pequeno golpe.Animado que estava , tomando conta de uma seção, de
repente a coisa muda totalmente. Eu tambem não gostei do novo
sistema e comecei a ficar desiludido com a firma. Noticias vinham que
os negocios não iam bem. Evitavam de mandar gente embora para não
gastar com encargos trabalhistas. O pagamento dos salários começou
a atrasar.

Fiquei desesperado, porque além de ganhar pouco , não tinha condições
de ficar sem dinheiro. Comecei a procurar outro emprego e tão logo
achei, pedi a conta. Deixei para tras a firma e os amigos que nunca
mais os vi. Em breve, embora estivesse na mesma cidade, o meu mundo
tornou-se outro. Ouros chefes, outros colegas outro sistema. Soube
depois que a empresa anterior tinha entrado em concordata.È
interessante como essas pessoas passam por nossa vida ( e a gente
na deles) formando um capítulo no conjunto dos anos.

Depois que o tempo passa, todos somem , cada um continuando a batalha do
dia a dia e esquecendo o passado.Quem trabalha ou trabalhou em
empresas conhece isso. Agora ,depois de muitos anos eles ressurgem em
nossas mentes como figuras na neblina.Lembramos deles conforme o
conhecemos:Jovens, mas sem detalhes.Nossa memoria é parecida como uma
máquina fotografica que pega o momento e perpetua na foto.

Nela não se consegue fazer um envelhecimento de pessoas que ha muito não
vemos. Gostaria de ve-las novamente, acertar as conversas , pedir
desculpas pela juventude apressada e anciosa ,pela correria da cidade grande,
pelos desencontros das idéias e pelo novo rumo tomado.Contar e ouvir sobre o
acontecido, comentar as alegrias, as conversas e os momentos. Quem sabe um
dia isso possa ser possível em uma outra dimensão. O fato é que continuei
amigos de todos, por todos estes tempos que não voltam mais.