Mostrando postagens com marcador conversa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conversa. Mostrar todas as postagens

Literatura 23-O tálamo...

                                                                                 23
O assunto era emocionante. Despertou em mim a ideia de ela me ajudar a fazer um plano melhor que os meus.
----Já pensei bastante nas possibilidades e cheguei a algumas conclusões. Primeiro temos que descartar a possibilidade de dinheiro, em vista que em nosso país, a moeda muda mais que as condições do tempo. Se pegarmos uma grana de trinta anos atrás, hoje nada vale. Imagine então de cem anos atrás. Se a gente estivesse nos States, por exemplo , a realidade seria outra. Lá o dólar de cem anos atras, vale praticamente o de hoje e são as mesmas notas e moedas praticamente. Então a gente tem que pensar somente em ouro. O ouro é eterno em seu valor e em qualquer lugar do mundo.
----Você tem toda razão. Nosso dinheiro e bem fajutinho. A história nos conta isso. Imagine pegar um pacote de notas de réis e mostrar agora para o gerente do banco. Irá rir em nossa cara e nos aconselhar a procurar um colecionador de dinheiro antigo. Por isso que é bom a gente valorizar o passado. Ele nos ensina muita coisa. Se a gente vivesse em um país do primeiro mundo, daí era outra conversa.
----É verdade. Então temos que dançar conforme o ritmo.
----E o que você acha que devemos fazer?----Perguntou ela enquanto colocava a salada pronta na mesa.
----Temos que fazer uma grande pesquisa. Me de uma ideia: Você acha que podemos descobrir um banco neste local, em determinada época?
----Pode ser... E também há a possibilidade do nunca.
----É verdade... Mas o jeito mais prático é viajarmos em determinadas épocas e verificarmos. Digamos assim, cada trinta anos. É um bom tempo, em que as coisas podem mudar.
Durante o almoço, continuamos com o assunto. Eliza estava interessadíssima. Fizemos um plano de voltarmos ao passado, trinta anos. Conforme o local, sairíamos para verificar nos arredores. Mas primeiramente tínhamos que verificar somente o lugar onde estávamos. Depois, na impossibilidade de alguma coisa, faríamos outros planos. Passamos a estudar o assunto quase que todo dia. À noite sentávamos a mesa da cozinha e esta se transformava em mesa de estudo, cheia de papeis, desenhos e jornais antigos que Eliza arranjava não sei onde. Como secretária ela era eficiente e cuidadosa.

Chegou a hora que tivemos que usar a cama. Era um domingo preguiçoso e tiramos à tarde para fazermos nossas pesquisas. Nos primeiros trinta anos atrás, aparecemos em uma casa de família, bem no meio do quarto. A cama do tempo ficou atravessada em cima de outra. Era a mesma construção dos dias atuais. Estávamos em um quarto simples com alguns moveis como guarda roupa e penteadeira, além da cama embaixo da nossa. Foi coisa de um minuto, para verificar o ambiente e sairmos dali. Elisa a principio tinha medo da cama, mas depois de algum tempo a sua ambição falou mais alto. Saía comigo em todas as empreitadas. Em outra investida, sessenta anos atrás, caímos em um terreno baldio, com capim alto. Nada havia ali que pudesse ser avaliado. Havia a possibilidade de em anos mais atrás nada ter por ali também. Mesmo assim fomos para noventa anos atrás. Agora, não só o local estava vazio como toda a área em redor. Nos cento e vinte anos então, era tudo mato. Resolvemos então voltar nos sessenta anos. Saímos do capinzal para verificar os arredores. Olhares curiosos de transeuntes nos fixavam com cara de riso. Certamente estavam pensando que eu e a moça estávamos ali no capinzal fazendo alguma sacanagem. Agimos com indiferença e perguntamos a um grupo de mocinhas que passava pelo local, onde tinha um banco.

----E logo ali na próxima esquina. ---Respondeu uma mais desinibida. De fato, na próxima esquina tinha um banco. 

Litratura.5 - O tálamo...

                                                                             5
Cheguei a casa, resoluto que iria ter uma conversa com ela, naquele dia mesmo. Não conseguiria conviver com aquilo. Passada a avalanche emocional, consegui me conter e me esforcei para nada demonstrar. Peguei uma cerveja e sentei para relaxar um pouco. Em meus pensamentos, planejava que não daria trégua àquela vagabunda. Iria ser homem, forte e implacável. À noitinha quando ela chegou, veio em minha direção para me beijar, o que me afastou da imponderação. Percebendo que algo não estava bem, indagou:
----O que houve? ----Falou com voz calma e firme.
----Eu vi... ---Respondi gravemente.
----Viu o que?Disse ela, me fixando e erguendo uma sobrancelha. Tinha uma facilidade para fazer isso.
----Vi uma vagabunda que diz ser minha esposa, sair com meu pior inimigo.
----O que? Você está louco?----Disse isso se afastando um pouco como se estivesse à beira de um precipício.
----Não... Não estou pelo menos por enquanto. Eu a peguei em flagrante lá na pracinha.
Depois de algumas negações, ela vendo que o que eu dizia correspondia à verdade, resolveu confessar.
----É verdade... Você tem rasão... Mas pretendo divorciar.
----Como assim? Aquele sujeito é casado. Ele vai divorciar também?
Há quanto tempo sai com ele? Já pensou na encrenca que você arranjou?
----Não interessa a vida dele. Faz seis meses que a gente se conhece... Damos-nos bem.
----Seis meses? Ele sabe que você é minha mulher?
----Acho que não... Nem eu sabia que você o conhecia. Só descobri há pouco tempo.
----Puxa... Aquele cara me azucrinou por anos a fio. E para completar ainda sai com minha esposa. Era só o que faltava em minha azarada vida, para completar a desgraça.
----Você está levando para o lado pessoal. Não é bem por aí. Está sendo egoísta. Alias, parece que nunca pensou em mim.
----Como? Mas é pessoal. É minha vida, minha rotina, meu lar que está em jogo. ----Ela fez um trejeito com o cabelo, virou a costa e disse calmamente:
----Amanhã vou falar com um advogado e nos divorciamos. Daí a gente vê o que faz. Você ficara livre, como eu também.
----O caramba... Quinze anos de casamento, e de repente acontece isso. Acho que estou em uma grande fase de azar. Tudo de ruim esta me acontecendo. ---Uma raiva começou a tomar forma dentro de mim.
----Tenha calma... Vamos resolver como amigos. É o melhor jeito.

----Amanhã você fala com o advogado e veja que seja providenciado esse divorcio o mais rápido possível. Não quero ver nunca mais a sua cara... Nem em sonhos. Você não merece um pingo de consideração. ---Ela fez um bico, como se ali tudo não passasse de uma brincadeira, e foi para o quarto em passadas mansas trocar de roupa. Fiquei pensando:- A ordinária leva tudo naturalmente. Há quanto tempo me trai? Só ela sabe. Façamos as contas... Seis meses atrás, eu ainda estava trabalhando. Seis menos dois são quatro. Isso quer dizer que nos últimos quatro meses de firma ela já saia com o cara. Era muita humilhação.