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Depois
de algum tempo, percebi que tinha mais gente no calabouço. Fiquei
alerta para qualquer eventualidade, mas depois vi que eles pouco
estavam ligando por ter mais um de companhia. Misturados com a palha
seca, mal dava para distingui-los na penumbra fria do lugar. Com o
passar das horas, com a fome atacando, tentei conversar com eles.
Pelo pouco que dava para enxergar vi que um era alto e magro, com
barbas negras e fala mansa. Deveria ter quarenta anos no máximo.
Outro era mais baixo e mais musculoso. Tinha também uma cara de paz.
Este me respondeu em uma linguagem desconhecida. Outro começou a
falar em espanhol, o que facilitou nossa comunicação. Eu tinha
muito que perguntar. Seu nome era Paco. O do outro parece que era
Freks. Fiquei sabendo que o lugar era uma vila de mulheres. Os únicos
homens que estavam por ali eram os prisioneiros. Depois da pergunta
inevitável sobre o que elas tinham contra os homens, o colega me
respondeu que nem ele sabia direito. E crianças... Tem crianças por aqui?-Perguntei interessado.Tem,
mas são poucas. Parece que é tudo calculado.E
como elas engravidam?-Elas
pegam um prisioneiro durante uma semana e após tratá-lo muito bem
o usam para os fins específicos. Depois o devolvem aqui para o
calabouço.-Estranho.
-Respondi surpreso.-Você
foi pego no deserto?-Sim,
pela patrulha delas.-É
isso mesmo... todos nós fomos pegos assim. Elas fazem o
patrulhamento para não deixar ninguém se aproximar da vila.-E
só existe esta vila por aqui?-Tem
mais... Mas todas são de mulheres. Parece que dominam tudo.Dentro
de algumas horas apareceu uma moça com nosso almoço. Com cara de
indiferente colocou no chão em frente à porta de grade. Era servido
em um recipiente de madeira leve e parecia não ser das piores pelo
aspecto. Não usavam o sal. Porem a fome ensinava que o importante
era comer e não apreciar o prato que consistia de legumes de varias
espécies. - São vegetarianos por aqui?-Perguntei ao sujeito alto.Com
o tempo a gente acostuma. Felizmente é bem nutritivo.Descobri
depois que o mau cheiro era proveniente de urina. Passava pelo meio
do cômodo uma espécie de canaleta onde os presos faziam suas
necessidades. Ocasionalmente, em algum ponto, jogavam água para
mandar embora os dejetos que saiam para o lado de fora da cela. Um
sistema medieval que funcionava, apesar do forte e permanente odor.
Parece que os conhecimentos de higiene eram escassos por ali.Perguntei
a moça se poderia falar com alguém que seria o líder delas.Ela
me lançou um olhar de desdém e simplesmente ignorou o que eu
disse.-Elas
não falam nossa língua-Disse Paco.-Mas
transmitem uma bela expressão de desprezo. - Respondi. A noite foi
terrível. Dormi sobre um monte de palhas no chão e sentia as pulgas
fazerem a festa em meu pobre corpo. Passei a maior parte da noite
acordado, pensando no meu triste destino. Ratos cinzentos também
passeavam pelo local. Tinha que elaborar um plano para fugir dali.
Alias, estava ficando especialista nisso. Quando o dia raiou ,
percebi que no ponto mais alto de uma das paredes, tinha uma janela,
obviamente com grade, embora a altura impedia olhar para o,lado de
fora. Senti um alegria, primeiramente por estar vivo, e depois pela
esperança que o raio de sol ou de outra estrela atingia a parede
oposta, com a aquela luz amarelada e quente, que eu tanto gostava no
tempo de inverno. Afinal , não sabia onde estava. O sujeito mais
baixo, começou a se retorcer a a gemer alto. Não estava se sentido
bem.-A comida de ontem deve ter feito mal a ele ou um rato o
mordeu.-Disse o outro companheiro.-E agora o que
faremos?-Perguntei apreensivo.-Vamos bater na grade para chamar
alguém para socorre-lo.-Dizendo isso, Paco pegou um pedaço de
ferro e começou a golpear a grade, que vibrava toda emitindo um
ruido irritante. Pensei comigo, o porque de ele ter aquele ferro em
mãos, sendo que ninguém o tomava. Era uma arma ou uma alavanca de
utilidade. Quando ele percebeu que vinha alguém, rapidamente
escondeu o metal embaixo da palha. Vendo isso, entendi sem precisar
de explicações. Apareceu a guarda e com sinais perguntou o que
estava acontecendo. Ele apontou o companheiro e tentou explicar que
não estava bem. Freks continuava gemendo alto e rolando na palha
suja e fedorenta.
A guarda olhou com desprezo e deu meia volta sem dar indícios de providências. Passado alguns minutos ela voltou acompanhada de mais uma. Traziam uma maca e algemas .Enquanto uma entrava e algemava o sujeito doente, a outra ficou a porta apontando uma arma para a gente. Pensei comigo que se levasse um tiro daquilo, seria o fim da pobre vida sofrida. Colocaram Freks na maca e lá foi ele gemendo, carregado pelas duas não sei pra onde. Perguntei ao Paco se ele saberia me dizer alguma coisa. Ele respondeu que certamente estavam levando o companheiro a uma espécie de enfermaria, onde seria medicado. Se fosse a comida, dariam a ele um tipo de tratamento. Se fosse mordida de rato,dariam uma injeção e logo estaria de volta.Depois que levaram Freks, começamos eu e Paco uma conversa para esclarecer certas coisas e pegar informações valiosas naquelas circunstâncias. Comecei por perguntar onde ele tinha arranjado o pedaço de ferro.---Foi um outro dia que eu descobri embaixo da palha.---Disse ele com boa vontade. Resolvi mudar a posição de me deitar e algo começou a incomodar minhas costas. Pensei ser um sabugo ou um pedaço de pedra e descobri a ponta. Como era noite, resolvi deixar para outro dia e me posicionei ao lado para dormir. Assim acharia facilmente. Outro dia de manhã, quando a guarda ficou mais relaxada, comecei a retira-lo. Estava enterrado quase que por inteiro e precisei usar a colher de madeira.-Sabe que isso é de grande utilidade para sair daqui né?-Falei com convicção.-É mesmo?-Respondeu ele com cara de incrédulo. Por um momento pensei ser ele um pouco burro, para não ver as várias possibilidades da ferramenta.-Tá gozando com minha cara, é?-Falei com em tom de piada.-Não... não estou não. É que eu tenho um problema que as vezes deixa devagar meu raciocínio.-Respondeu ele.-Quando apareceu o guarda para atender, não vi nada de devagar com seu raciocínio, na rapidez que escondeu o perfil de aço.-Não é aço.-Não? Então é mole?-Também não é mole. É um material muito mais duro que o aço e não quebra. Deve ser algo alienígena.-Deixa eu dar uma olhada.Ele com paciência pegou o metal onde tinha escondido, não sem antes verificar pelo corredor se não vinha gente. Virando as costas para as grades ele me entregou. A primeira vista pareceu-me ser um pedaço de ferro comum. Tinha a bitola de uns 20 milímetros e comprimento aproximado de 60 centímetros. De um lado o corte era reto. De outro terminava em uma ponta em ângulo de 60 graus. Observando melhor vi que sua cor no topo era um pouco azulada e não cinzenta como o aço 1040 que eu conhecia bem.(Comprei muito isso quando trabalhava na empresa). O peso era praticamente igual. Na superfície externa não tinha ferrugem. Ali a cor mudava um pouco para o escuro. Devolvi a ele vendo que estava dando sinais de preocupação de estar comigo a peça. Pensei comigo que o indivíduo ao ficar preso, solitário, começa a valorizar coisas banais. Se apega com porcarias, para conseguir vencer as horas e os dias sem ficar louco.---Com isto você pode sair daqui, sabia?-É mesmo?---ele respondeu com admiração nos olhos brilhantes.- Você pode usar como alavanca para forçar aquela grade velha lá em cima, que certamente está enferrujada nas pontas. Pode também usar como arma, dando uma cacetada na cabeça da guarda quando ela vier trazer o almoço e ainda usar para escavar o chão e fazer um buraco por baixo da parede para sair do lado de fora.-Ele ficou de boca aberta pela inúmeras possibilidades que descrevi no uso da ferramenta. Apertou com força contra o peito como se entendesse a preciosidade daquilo para uma fuga. Naquele mesmo dia, um ajudando outro,nas horas mais calmas e sem movimento, começamos a trabalhar na grade da janela. Enquanto um vigiava o corredor, outro fazia o serviço. Quando a noite chegou, trazendo as sombras e o silêncio da natureza, paramos para não chamar a atenção com o ruido estranho que nosso trabalho ocasionava. Faltava pouco para a grade se soltar. Eu pensava que com um safanão mais forte ela cedia. A noite conversamos sobre as possibilidades da fuga e estudamos as estratégias. De repente veio em minha cabeça a ideia de somente um poder fugir. As circunstâncias sempre mudam e os planos tem que ter as opções. Faltava o plano B. Discuti com Paco a questão e resolvemos que se faltasse um por qualquer problema, o outro deveria seguir em frente, e não procurar um salvar outro. Somente depois que estivesse fora de perigo poderia procurar um meio de ajudar. Então seria mais ou menos o “Cada um por si”. Esclareci bem a ele que a fuga deveria ser feita a noite. Perguntei a ele se conhecia o lugar e onde pretendia ir.-Aqui nada conheço-Disse.-Mas eu estava antes em uma cidade , creio que mais ao norte. Vou tentar chegar por lá.-Avisei ele sobre as armadilhas do deserto. De algumas ele já sabia.
A guarda olhou com desprezo e deu meia volta sem dar indícios de providências. Passado alguns minutos ela voltou acompanhada de mais uma. Traziam uma maca e algemas .Enquanto uma entrava e algemava o sujeito doente, a outra ficou a porta apontando uma arma para a gente. Pensei comigo que se levasse um tiro daquilo, seria o fim da pobre vida sofrida. Colocaram Freks na maca e lá foi ele gemendo, carregado pelas duas não sei pra onde. Perguntei ao Paco se ele saberia me dizer alguma coisa. Ele respondeu que certamente estavam levando o companheiro a uma espécie de enfermaria, onde seria medicado. Se fosse a comida, dariam a ele um tipo de tratamento. Se fosse mordida de rato,dariam uma injeção e logo estaria de volta.Depois que levaram Freks, começamos eu e Paco uma conversa para esclarecer certas coisas e pegar informações valiosas naquelas circunstâncias. Comecei por perguntar onde ele tinha arranjado o pedaço de ferro.---Foi um outro dia que eu descobri embaixo da palha.---Disse ele com boa vontade. Resolvi mudar a posição de me deitar e algo começou a incomodar minhas costas. Pensei ser um sabugo ou um pedaço de pedra e descobri a ponta. Como era noite, resolvi deixar para outro dia e me posicionei ao lado para dormir. Assim acharia facilmente. Outro dia de manhã, quando a guarda ficou mais relaxada, comecei a retira-lo. Estava enterrado quase que por inteiro e precisei usar a colher de madeira.-Sabe que isso é de grande utilidade para sair daqui né?-Falei com convicção.-É mesmo?-Respondeu ele com cara de incrédulo. Por um momento pensei ser ele um pouco burro, para não ver as várias possibilidades da ferramenta.-Tá gozando com minha cara, é?-Falei com em tom de piada.-Não... não estou não. É que eu tenho um problema que as vezes deixa devagar meu raciocínio.-Respondeu ele.-Quando apareceu o guarda para atender, não vi nada de devagar com seu raciocínio, na rapidez que escondeu o perfil de aço.-Não é aço.-Não? Então é mole?-Também não é mole. É um material muito mais duro que o aço e não quebra. Deve ser algo alienígena.-Deixa eu dar uma olhada.Ele com paciência pegou o metal onde tinha escondido, não sem antes verificar pelo corredor se não vinha gente. Virando as costas para as grades ele me entregou. A primeira vista pareceu-me ser um pedaço de ferro comum. Tinha a bitola de uns 20 milímetros e comprimento aproximado de 60 centímetros. De um lado o corte era reto. De outro terminava em uma ponta em ângulo de 60 graus. Observando melhor vi que sua cor no topo era um pouco azulada e não cinzenta como o aço 1040 que eu conhecia bem.(Comprei muito isso quando trabalhava na empresa). O peso era praticamente igual. Na superfície externa não tinha ferrugem. Ali a cor mudava um pouco para o escuro. Devolvi a ele vendo que estava dando sinais de preocupação de estar comigo a peça. Pensei comigo que o indivíduo ao ficar preso, solitário, começa a valorizar coisas banais. Se apega com porcarias, para conseguir vencer as horas e os dias sem ficar louco.---Com isto você pode sair daqui, sabia?-É mesmo?---ele respondeu com admiração nos olhos brilhantes.- Você pode usar como alavanca para forçar aquela grade velha lá em cima, que certamente está enferrujada nas pontas. Pode também usar como arma, dando uma cacetada na cabeça da guarda quando ela vier trazer o almoço e ainda usar para escavar o chão e fazer um buraco por baixo da parede para sair do lado de fora.-Ele ficou de boca aberta pela inúmeras possibilidades que descrevi no uso da ferramenta. Apertou com força contra o peito como se entendesse a preciosidade daquilo para uma fuga. Naquele mesmo dia, um ajudando outro,nas horas mais calmas e sem movimento, começamos a trabalhar na grade da janela. Enquanto um vigiava o corredor, outro fazia o serviço. Quando a noite chegou, trazendo as sombras e o silêncio da natureza, paramos para não chamar a atenção com o ruido estranho que nosso trabalho ocasionava. Faltava pouco para a grade se soltar. Eu pensava que com um safanão mais forte ela cedia. A noite conversamos sobre as possibilidades da fuga e estudamos as estratégias. De repente veio em minha cabeça a ideia de somente um poder fugir. As circunstâncias sempre mudam e os planos tem que ter as opções. Faltava o plano B. Discuti com Paco a questão e resolvemos que se faltasse um por qualquer problema, o outro deveria seguir em frente, e não procurar um salvar outro. Somente depois que estivesse fora de perigo poderia procurar um meio de ajudar. Então seria mais ou menos o “Cada um por si”. Esclareci bem a ele que a fuga deveria ser feita a noite. Perguntei a ele se conhecia o lugar e onde pretendia ir.-Aqui nada conheço-Disse.-Mas eu estava antes em uma cidade , creio que mais ao norte. Vou tentar chegar por lá.-Avisei ele sobre as armadilhas do deserto. De algumas ele já sabia.
Outro
dia, apareceram três mulheres. Traziam Freks, que parecia já estar
recuperado. Além disso estavam fazendo uma avaliação dos
prisioneiros. Uma delas ate que era bem bonita, com cabelos claros, o
que me fez lembrar Beatriz. Mas logo notei quando ela se aproximou
mais, que seus dentes não eram lá essas coisas, quanto à limpeza.
Estavam com uma lanterna, para clarear os cantos escuros.
Surpreendi-me com isso, vendo os contrastes do antigo com a
modernidade. Outras duas eram do tipo que não chamavam atenção.
Uma bem magrela e fora dos padrões geométricos. Outra era uma
mulata gordinha e tinha as protuberâncias mal distribuídas. Enormes
peitos e ausência do resto. A magrinha tinha um rosto que lembrava
raposa. A gordinha era mais interessante de fisionomia, mas não
saia do lugar comum. A loira falou alguma coisa e apontou para mim.
Abriram a cela e por sinais indicaram que deveria sair. A gordinha
apontava uma arma pequena em minha direção. A magrela colocou
minhas mãos para traz e amarrou-as. O meu companheiro de cela ainda
disse baixinho.-Você
vai se divertir um pouco, pelo que parece.-Se eu não voltar antes
do anoitecer, toque o plano para a frente.-Disse eu, recebendo um
safanão para andar mais depressa.Tentei
dialogar com a loira, mas sem resultado. Ao sairmos fora, senti o
calor gostoso do sol da manhã e o cheiro familiar da relva
verdejante. Notei mais um vez que o gavião continuava veraneando no
céu azul, dando pios estridentes.
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