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Literatura-63.O tálamo...

      Direitos reservados                                                                         63
E assim minha vida continuou ate os dias de hoje, tranquila e feliz. Estou mais devagar, tomando remédios para próstata, hipertensão, contando os dias, que parece passam mais depressa. Moramos em um pequeno chalé a beira de uma praia deserta. Gosto do cheiro do mar e da tranquilidade do lugar. Isso só e´interrompido pelo barulho das águas agitadas, ou pelo vento das tempestades. Minha mulher continua a mesma de sempre. Jovem, bonita e cheia de vida. Trata-me carinhosamente e cuida de mim como toda boa esposa cuida de seus velhos maridos. Meus inimigos e meus poucos amigos ficaram todos no passado, perdidos nas camadas do tempo. O meu ex chefe de firma, Aristides, na verdade nunca quis fazer revanche depois que voltou da viagem que eu o resgatei. A gente tinha desconfiado dele, mas era apenas um coincidência de nomes. A diferença era na escrita: Um era Aristides e outro Aristhide. Estava vindo uma nova era, com novas gerações assumindo os lugares das velhas. 

A mim, sobrou o papel de observador. Nunca mais vi Celina. Talvez porque minha vida tornou-se pacata e segura. Também não sonhei mais com ela. Ficou somente como uma personagem no fundo de minhas lembranças. Mas espero encontra-la um dia, nem que seja na hora de minha morte. Certa vez, um psicoanalista me disse que ela era apenas uma criação de minha mente. Nas condições estressantes por que passei, o cérebro criou a personagem e assim eu tinha um apoio extra nas minhas angustias. Mas nunca acreditei nessa teoria. Parei de discutir sobre o assunto, porque se insistisse poderiam me chamar de louco .Os alienígenas me deixaram viver em paz, ou porque não me acharam, ou porque desistiram de mim. O tálamo está agora somente em minhas historias, que ninguém acredita, ainda mais vinda de um velho. Nada posso reclamar da vida no dia de hoje, porque tive as compensações para os meus sofrimentos. Ísis agora está em frente à janela, observando o céu noturno. Gostaria de saber o que ela está pensando. Ela sabe o que tem no infinito espaço estrelado. Foi de lá que ela veio.

                                                                        FIM

Literatura.61.O tálamo...

     Direitos adquiridos                                                  61
O tempo melhorou um pouco, com a chuva dando uma pausa. A neblina continuava espessa. Nós dois calados ,seguíamos pela estrada de terra deserta. Somente o barulho do motor e das pedras molhadas sendo pressionadas pelas rodas ligeiras. Quando estas caiam em uma poça de água, o barulho se modificava e água lamacenta era jogada nas laterais, mudando a cor dos arbustos encharcados.Lá atrás, seis corpos inertes estavam cobertos com um plástico preto,desses que os sem-terra fazem suas barracas. Ocasionalmente pulava água barrenta no para-brisa, o que obrigava a motorista esguichar água para limpar.A cerâmica era simples e não tinha cerca que a isolasse. A chaminé era a única coisa que chamava mais atenção, em sua imponência construtiva.Redonda de tijolos a vista e afunilada na parte alta. Diziam que somente pedreiros especialistas a faziam, porque o prumo era tirado pelo centro do círculo. Meia ofuscada pela neblina , ainda dava para ver a fumaça escura saindo pelos altos. O resto era construção baixa que se misturava com o solo vermelho. Ísis encostou a camionete próximo a chaminé. Depois resolveu adiantar mais um pouco e a levou até as proximidades do forno. A boca do inferno tinha aproximadamente um metro e meio de altura e dentro cintilava uma luz branca de mil graus centígrados ou mais. Ocasionalmente era jogado lenha para manter a temperatura. O calor atingia cinco metros a frente.---Aqui fica mais fácil.----Disse. Descemos juntos. Logo apareceu um peão coçando os olhos de sono e surpreso de aparecer gente na madrugada. A noite estava nas últimas horas.--O que voceis querem por aqui , fora de hora?--Ôooo Mané... não está me conhecendo home.----Respondeu Isis sorrindo e indo ate´o individuo. Eu, nessas alturas nem admirado ficava com as estratégias de minha mulher. Deu um abraço e um beijinho no rosto do peão como se fossem velhos conhecidos.---Estamos saindo de viagem e para aproveitar o dia, madrugamos. Ao passar por perto vimos a fumaça da chaminé e resolvemos dar uma olhada como você assa seus tijolos. Pretendemos construir futuramente e já estamos pesquisando.----Enquanto ela mantinha o peão com a conversa , me apresentou a distância.---PG? pega aí no veículo aquele doce que eu trouxe para o Mané. 

Está no porta luva.----Fui ver e de fato tinha uma caixinha de doces embrulhada com carinho. Ela veio encontrar comigo no meio do caminho e disse.:----Dê a ele o doce e mantenha-o com a atenção em você.----Peguei o pacotinho e levei com um sorriso falso para o indivíduo. A distancia ela ainda falou.----Mané, enquanto você conversa com meu marido, posso dar uma olhadinha nos tijolos?---Sim senhora, dona.---Puxei uma conversa com ele, perguntando se dava para dormir um pouco enquanto olhava o forno.--- É... de cada hora a gente põe um pouco de lenha e daí dá para tirar um cochilo. Enquanto eu conversava com o forneiro, posicionado de uma forma que bloqueava a visão dele da área do forno, a moça atirava os corpos na fornalha. Tinha força e rapidez e a operação não durou mais do que um minuto. Pensei eu que ela carregava de dois em dois os defuntos, para ser tão rápido. Logo ela voltava toda sorridente para nós, me convidando para ir embora.--- Puxa que boca de forno quente hei? Não faz mal a você encarar toda hora esse calor?---Disse ela com curiosidade.---Mal eu acho que faz, moça. Mais o que a gente que é pobre pode fazer né?---Disse ele meio conformado com a sua situação. O trabalhador ficou como se estivesse hipnotizado perante a moça. Quando saímos , parece que ele despertou do transe. Ainda o vi a distancia segurando o pacote e olhando a gente ir embora. A maioria das pessoas ficavam estupefatas mediante a beldade . Imaginem agora os mais simples. Um leve cheiro de carne assada percorreu as redondezas por alguns instantes.

Literatura-60.O tálamo do tempo.

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Poderiam nessas circunstâncias jogarem uma granada para dentro da casa o até incendiá-la para fazer a gente sair. O primeiro que entrasse levaria chumbo, pensei eu. Mas tinha confiança em minha mulher , que não deixaria isso acontecer. De vez em quando atravessava a sala, para ver de outro lado. Pelo lado de fora, Ísis serpenteava por entre arvores e cantos de parede , procurando os agressores. Não demorou e surpreendeu um. Atirou uma pedra de 300 gramas na cabeça do homem com tal precisão, fazendo um barulho xoxo, igual uma abóbora amassada. Sem um gemido o individuo caiu na vertical. Parece que eram seis. Agora tinha cinco. Começou o tiroteio, onde o alvo principal era a casa.Um outro de arma em punho e com uma granada na mão, ameaçava atira-la dentro da casa. Se isso acontecesse iria acabar com a sala e comigo . Quando o individuo ergueu a mão para jogar o petardo, eu já estava com ele na mira. Apertei o gatilho e percebí que a bala o atingiu no braço. Este largou a granada imediatamente. A granada estava a cinco centímetros para bater no chão, quando foi apanhada por um vulto que estava atrás dele, com uma rapidez incrível e no mesmo movimento atirada para outra direção. Caiu próximo a dois outros bandidos que emitiram um grito em sintonia com a explosão. Em seguida, no próximo segundo o vulto com um pedaço de arame farpado, fechou em torno do pescoço do indivíduo. Certamente que outros dois foram atingidos. Restava somente um em atividade. Este ,um cão pegou atrás da casa e já o estava destroçando quando foi acudido por Isis. Era quem iria nos dizer quem foi o mandante. Machucado e tremendo todo,não foi difícil obter informações. Disse que fora o dono da boate que os mandara. Tínhamos roubado uma grande quantia em dinheiro dele, que na verdade pertencia a um outro elemento da política, que nunca aparecia, mas mandava as ordens. Discuti em particular com minha mulher sobre o destino do indivíduo. Se soltássemos o sujeito ,que estava super amedrontado, poderia ir embora e dar as informações ao seu chefe. Tivera uma experiência ruim, seus comparsas estavam todos mortos e por sorte ele tinha escapado com vida... por enquanto. Isis me disse que se a situação fosse invertida ele não iria nos poupar.---Bandido é bandido PG. Eles não tem moral e muito menos piedade. Se o soltarmos, pode ser que ele mesmo o mate na próxima. Não se pode dar chance. Deixe que eu dou um jeito. Vá ver como está a moça.---Eu fiquei meio incomodado, mas dei rasão a ela. Em seguida um disparo clareou o ambiente. Depois veio o silêncio, interrompido somente pelos grilos, do lado de fora.

Quando tudo se acalmou nos apressamos a ver como estava Valdívia. Corremos pelos cômodos a procurando, já antevendo algo ruim. Achei-a caída atras de um sofá , mas já era tarde demais para socorrê-la. Foi vítima de uma bala perdida. Ela tinha saído do quarto e vindo até a sala. Com a atenção nos bandidos lá fora, nem vi quando ela tinha aparecido por ali. Foi uma tremenda falta de sorte, porque poucos tiros foram dados em direção a sala. Um sentimento de tristeza nos invadiu. Abraçados eu e Ísis choramos e lastimamos a perda da amiga.Depois de um tempo de lamentações, aos poucos a onda depressiva foi passando e logo caimos na real. O tempo urgia e minha mulher lembrou que teríamos que dar fim nos corpos.A dor da perda da amiga tinha que ser adiada e tínhamos que agir de acordo com a realidade.--- Sem corpos não há crime, não há provas nem condenação, pela justiça dos homens.---Falou Isis. Ela lembrou que próximo da chácara tinha uma cerâmica. Aí eu disse: ----E o que tem a ver a cerâmica com os corpos?--Tem muito a ver. Toda cerâmica tem um forno, e geralmente eles estão funcionando a noite. Já pensou em algo melhor do que cremar os bandidos? Terão um sumiço definitivo e nada poderão fazer com as cinzas se por acaso as encontrarem.---Boa ideia, mas você sabe que lá, no mínimo vai ter uma pessoa vigiando o forno. Ainda se este estiver aceso.---Não se preocupe com isso, que eu darei um jeito.----Foi até a geladeira, pegou alguns ingredientes para sanduíche e levou ate´a picape. Depois , sozinha, com um fardo na costa carregou um por um dos bandidos e os colocou arrumadinhos na carroceria do veículo.---Vamos lá? Quanto mais depressa nos livrarmos desse entulho, melhor.---E Valdívia ?----Na volta daremos um enterro decente a ela. Deixe-a aí por enquanto. Daí lembramos de procurar informações nos bolsos dos bandidos mortos. Achamos em um dos corpos um bilhete onde tinha as informações de como chegar até a nossa chácara. Em outro dentro de uma carteira,um número de telefone onde em cima estava escrito :“Chefe”.Isis mostrou a mim e disse:--- Pode ser este o indivíduo que temos que achar nos próximos dias. Certamente é ele o mandante.


Literatura- 59.O tálamo...

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Em seguida veio uma calmaria, mas Ísis sempre me advertia que algo poderia acontecer de repente. Ficamos um tempo, os três em casa, sem nada fazer a não ser estudar as várias possibilidades de se tocar a vida com aquele monte de dinheiro. Como ninguém o reclamou, começamos a trocá-lo devagar. As tarefas da casa eram divididas entre as duas. Valdívia demonstrou ser uma excelente cozinheira, então a gente dava a oportunidade para ela cozinhar. Ísis limpava a casa, serviço leve para ela e pelo tamanho médio da residência.Veio a ideia de comprarmos uma chácara próxima a cidade, onde o lugar além do sossego dava um isolamento mais seguro. Chegamos a conclusão que se abríssemos outro comercio, certamente iriam nos achar mais facilmente. Tínhamos muito cuidado em trocar os dólares. Fazíamos isso em várias cidades , para não despertar suspeitas. Morávamos em um país onde o governo arrecadava horrores e gastava desmesuradamente em uma administração super incompetente e ninguém falava nada. Nenhuma crítica, nenhum comentário. Ao contrario disso , o cidadão que tivesse um pouco a mais de dinheiro, teria que explicar de onde tinha vindo. O bancos como sempre , eram comparsas do sistema e denunciavam alguém que se aventurasse a depositar quantias um pouco além de certos limites. Daí que surgiu a expressão “lavagem de dinheiro”, que muitos políticos e traficantes fazem uso até hoje. Começamos a fazer planos. Mesmo na chácara sem fazer nada , se uma hora a gente enjoasse da ociosidade, poderíamos inventar algo para fazer. Até aquele momento a gente não sabia que quanto maior o terreno, mais trabalho se tem. É arrumar cercas,cortar o mato que em pouco tempo toma conta de tudo e outras coisas menores.

 Com muito sossego e sem estrepolias, achamos uma que agradou a todos. Tinha arvoredos e um pequeno lago originário de uma vertente. Mudamos para lá e a primeira providência foi fazer uma reforma na casa para deixá-la mais segura. Arranjamos quatro cães de guarda para completar o esquema. Esquecemos por hora do Aristides. Eu ainda tinha minhas duvidas se realmente foi ele que pagou pela execução do serviço. Mas por outro lado, não conhecia ninguém mais com esse nome, mesmo escarafunchando a memoria para tentar descobri-lo lá no passado. Iríamos deixar quieto por enquanto ,mesmo porque as tarefas na nova casa, tomavam todo o nosso tempo. Uma das coisas que me fazia bem, era a passarada que visitava algumas árvores próximo a casa. Era uma algazarra no amanhecer do dia e outra no entardecer, demarcando bem o dia da noite. Mostravam que no mundo deles, embora tivessem os contratempos, demonstravam alegria com seus cantos , como se fosse uma prece melodiosa de agradecimento, pela curta, mas preciosa vida que o criador os dava. Grande exemplo para os humanos que por qualquer probleminha, reclama.O lugar não era muito grande mas mesmo assim dava bastante trabalho. Trocamos as cercas de palaques de madeira por outros de cimento e colocamos dez fios de arame farpado. Nem galinha passava por ela. Gente, só se cortasse os arames. Ficamos nessa rotina por volta de cinco meses.---Uma certa noite escura e chuvosa, aconteceu o que já esperávamos. Uma das coisas mais atormentadoras, é saber que algo vai nos acontecer mas , sem saber quando. Mas quando a hora chega,em vez de medo, um alívio percorre nossa medula, por saber que o final da espera está chegando.Já estávamos dormindo e era por volta das três da madrugada, quando os cães começaram a latir lá pela frente do terreno. A chuva fina e fria colaborava com a escuridão da noite, deixando-a nebulosa.Ísis me acordou e disse:----Tem gente tentando invadir.----Despertei rapidamente e fui a té o armário onde peguei as armas. Dei uma a ela e juntos fomos acordar a outra. Deixamos ela em alerta, mas com a recomendação que não saísse dali. Uma bomba explodiu a certa distância e um cachorro fugiu apavorado pelo estouro, passando pelo lado da casa ganindo. Parece que estavam usando granadas. Apagamos as luzes.---Vieram com tudo ----Alertei minha mulher.---Você fica aqui dentro e eu vou la fora , ver se pego um por um. A neblina vai favorecer.----Disse ela se esquivando pelo escuro e saindo furtivamente pela fresta da porta entreaberta momentaneamente. Fiquei de arma em punho procurando ver alguma coisa, por um cantinho da janela embaçada. Os bandidos vinham separados uns dos outros .A intenção era cercar a casa primeiro, para depois invadir.


Literatura- 57.O tálamo...

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Já passava um bom tempo, desde o dia do assalto. Meus ferimentos sararam. Somente sentia alguma dor no local da barriga quando me mexia e no da perna quando andava. Ainda tomava analgésicos para amenizar. A gente ficava alguns dias em um hotel , depois mudava para outro para despistar possíveis ataques. Nosso dinheiro estava acabando, nossa loja continuava fechada. Foi nessas alturas que decidimos partir para o ataque. Resolvemos juntar o estoque da loja, por em um caminhão e nos mudar para outra cidade. Tudo feito a noite e com Ísis de guarda no lado de fora, para qualquer eventualidade. Todo cuidado era pouco.Valdívia me ajudava com os sapatos. Eu já bem recuperado, ocasionalmente dava uma apalpada no traseiro bonito. Ela sorria como se dissesse: Sou toda sua. O prédio, como fosse alugado, entregamos para a imobiliária e ainda pagamos uma multa por rescindir o contrato antes da hora. Estávamos livres para ir para qualquer lugar. Brinquei com Ísis: ----Dá pra gente ir até o seu mundo agora.--Vocês não se acostumariam lá. O sistema é bem diferente. Talvez nem eu me acostume mais.---- 
Disse ela.Mudamos para outra cidade um pouco menor, distante da anterior sessenta quilômetros. Alugamos para começar uma casa simples, próxima ao centro. Ali seria o nosso quartel general. Antes de montar outra loja ou definir o que iríamos fazer, tínhamos que tomar certas providências. Se possível reaver nosso dinheiro. Tinha uma grande fé em minha mulher, para resolver essa parada. Em uma noite de lua nova,lá fomos nós de volta para tomar as providências. Valdívia ficou em casa , esperta para atender o telefone, caso a gente precisasse de algo. Ísis tomou a cautela de alterar o número da placa de nosso carro , caso alguém anotasse. Colocou a peruca loira, uma camiseta preta e uma saia com um palmo acima dos joelhos. Ficou um pouco mais alta com um sapato de salto. Nem eu a reconheceria se a encontrasse vestida daquele jeito, meio de repente. O plano era, eu ficar estacionado nas proximidades da boate , enquanto ela entrava para resolver a situação. Estávamos com duas armas. Uma ficou comigo e outra tirada do bandido morto estava com ela,mesmo sem necessidade de usá-la.

 No céu somente algumas estrelas conseguiam furar o véu de nuvens escuras e passageiras. Uma brisa agitava levemente os ramos ponteiros da árvore onde o carro estava em baixo. Já tinha passado meia hora, que Ísis tinha entrado na toca do urso. A luz do luminoso no alto da marquise, mudava as cores da rua em frente, conforme ia trocando de matiz. Era o formato de uma moça riscado em tubinhos de neon, em pose sensual, com um cigarro entre os dedos. Outra mão estava na nuca, bor baixo dos cabelos. Algumas pessoas estavam em frente. Conversavam entre si, enquanto outras ficavam isoladas. Essas deveriam ser seguranças do lado de fora, para avisar quando a polícia estava vindo. Ali , sentado na penumbra, comecei a divagar a respeito de minha vida. A cada minuto olhava no relógio para ver o tempo em que a moça permanecia dentro da toca da onça. Um outro dia de um outro ano já passado, eu estaria deitado, descasando para o próximo dia de trabalho. Agora,estava aqui, esperando minha robô resolver um problema dentro de uma boate. Nunca sequer tinha sonhado com esta situação. Escutei um tiro, dois, três, vindo do interior da boate. As pessoas correram. Algumas para seus carros e outras para dentro do prédio. Me preparei e liguei o motor do carro. A cena agora mudava do tudo calmo e parado para o agitado e repentino. A moça saiu calmamente com uma maleta na mão, como se não tivesse nada com o tumulto lá dentro. Deduzi que ela fizera um limpa no pessoal para sair daquele jeito. Entrou sossegada no carro ao meu lado e disse: ----Vamos embora PG. Aqui já está resolvido.----Saí sem alarde, para não chamar atenção. Ligamos para Valdívia, avisando que já estávamos indo. Depois de uma hora de estrada, chegamos em casa.Ísis colocou a maleta sobre a mesa e mediante o olhar de todos nós a abriu com cuidado , sem antes observar bem. Segundo o que ela aprendeu nos filmes, que maletas as vezes podem explodir ao abri-las. Apareceu diante de nossos olhos incrédulos três fileiras de notas verdes de cem dólares, em pacotes de doze centímetros de altura. Automaticamente, falei:----Mas esse não é nosso dinheiro. Aí deve ter o triplo.----Ali parecia ter a solução para a maioria dos problemas do ser humano. Na cabeça da gente, passa mil coisas quando se tem uma visão dessas. Quando podemos pensar que, se está em nossas mãos, é nosso.. Temos também uma sensação de poder e bem estar. Percebemos que ali está a realização de nossos desejos : De possuir,de consumo , de poder .--Que bom PG.. vamos considerar então que são os juros do empréstimo.----Disse Ísis com cara de marota.----Ou você quer que eu volte lá para destrocar as maletas, ou voltar o troco? ----Respondi, com um sorriso sem graça. Afinal estamos na vantagem , o que iria reclamar. Depois , roubar de ladrão, tem cem anos de perdão. Valdívia observava tudo calada. Serviu-nos um café da hora que tinha preparado quando chegamos. Gostava dela, porque sabia quando era hora de falar e calar.--Bom...já que você está bem calminha, nos conte agora como foi sua entrada no local.----Disse eu fazendo um gracejo e agitando as mãos.--Ok...para entrar foi fácil porque pensaram que eu trabalhava na casa. Cheguei até o bar e simulei um teatro.

Literatura-56.O tálamo...

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--Mais um serviço para hoje... e olha quem eu trago de volta para o lar... esta vagabunda.--Qual é o problema com ela? ----Perguntei, já desconfiando que saberia da resposta.--Ela é cúmplice. Armou tudo com o namorado, passou a ele todas as informações e ainda fingiu sobre o sequestro. Na verdade, quando a levaram no dia que o balearam, ela estava entre amigos.--E porquê você a trouxe?--Para obter informações de onde está o bandido que a namora. Parece que ele é o chefe da quadrilha.----Cheguei perto da moça sentada,seus cabelos negros cobriam o rosto como que para esconder a vergonha de nos trair.--Puxa, não esperava isso de você garota. O ser humano cada vez fica mais embaixo comigo.Ja acredito tão pouco na humanidade e quando acontece essas coisas fico mais decepcionado ainda.--Eu não tive culpa, PG. Fui forçada a colaborar para salvar minha vida. Ele me ameaçou de morte se não colaborasse.--Que belo namorado você arranjou , né? Melhor do que esse, seria impossível.----Celina a um canto, achava muita graça no meu diálogo. Aliás ,parecia que naquela noite ela não tinha pressa alguma de ir embora como de outras vezes. Ísis sem perder tempo se agitava parecendo que seguia um roteiro já estudado. Botou o enorme bandido as costas e descendo a escada como se carregasse uma palha disse:----Eu volto dentro de meia hora. Se a vagabunda tentar fugir, passe fogo nela PG. E se ela conseguir, pode ficar tranquilo que de mim ela não escapa. Olhei para a moça no sofá e vi que tremia tremia levemente. Estava aterrorizada, com medo de Ísis. Tinha percebido sua força.Olhando para mim com cara de choro, disse baixinho.:---Eu não vou fugir PG. Não tenho para onde ir.----Senti dó da garota naquele momento, mesmo sabendo que fora responsável pelo roubo de todo o meu dinheiro.--Bom... se o que você diz é verdade, para se redimir terá de nos levar até o seu namorado. Teremos que recuperar aquela grana toda.--Ele não é mais meu namorado. O namoro acabou no momento que ele me ameaçou.----Sentia a verdade em suas palavras. Celina via a TV, sentada em uma ponta do sofá. Dali a pouco presenciaria uma cena nunca antes vista. Três mulheres reunidas e todas ligadas a mim.Olhei mais uma vez para Celina, apreciando sua beleza rara e ao trocar olhares percebi que ela se comunicou comigo sem falar. Fiquei admirado por mais essa qualidade na moça. Percebi que ela entendia tudo que eu pensava a olhando diretamente nos olhos.--Já vou indo----Senti ela dizer.--Porque tão cedo?----Devolvi em pensamento.--Já parei muito e parece que as coisas por aqui já se resolveram.--Volte outro dia quando eu estiver sozinho.--Vou pensar no assunto----Disse com um leve sorriso.--Ok então...mas antes um beijo de despedida.----Ela se aproximou e me deu outro com a mesma intensidade do primeiro. Senti as mesmas sensações. No próximo minuto já tinha ido. Valdívia percebeu minha oscilação e perguntou se estava me sentindo bem.--Estou ótimo apesar das costuras e bandagens.----Me sentei ao seu lado. Senti o calor de seu corpo generoso acalmar minhas dores. Apesar de tudo , não a queria mal e iria testá-la um pouco mais para ver ate´onde iria a verdade. Torcia para que ela não tivesse nenhuma culpa. Ísis não a perdoaria se encontrasse um mínimo de falsidade.--Se a gente matar o seu ….ex. O que você vai achar?--Não sinto mais nada por ele, PG. O que fizerem estará bem feito.--Ótimo....assim fica mais fácil. Você sabe que essa gente nunca desiste. Então muitas vezes temos que ser radicais. O exemplo está aí...hoje aqui e dias atras no hospital. Querem acabar comigo por uma rasão que ainda não sei. Se não fosse meu bom ouvido, já estaria enterrado uma hora destas. Passava um pouco da hora estipulada por Ísis. Logo escutamos la de baixo o cheguei, característico e em bom tom.--Está resolvido.----Disse ela sentando ao meu lado. Fiquei entre as duas , como se separasse o lado bom do ruim. Uma era sincera e nunca falhou comigo...Nunca falhou? E a saída com o bandido?Bem...isso ninguém sabe a não ser ela somente. Outra sempre foi honesta e nunca me pediu nada. E o envolvimento com o bandido?Isso também era coisa que somente ela saberia explicar.... ou não. A minha balança deixava as duas em posições iguais. Dizem que cabeça de mulher é igual melancia...só abrindo para ver o que tem dentro. Isso só poderia ser filosofia de bar.--Bom, agora vamos ver o que esta aqui sabe.----Disse Ísis olhando para outra com cara fechada. Percebia em minha mulher que a medida que o tempo passava , tinha mais atitudes semelhantes aos humanos. Dava até para perceber um pedacinho de ciume pela outra.--Olha querida... enquanto você estava fora eu conversei com ela e cheguei a conclusão que ela foi mais uma vítima do que conivente. Ela está até disposta a nos dar mais informações, para que cheguemos no rapaz.--Ah é? Você é ingenuo PG. Embora goste das mulheres, não sabe o que passa na cabeça delas. Isso o torna presa fácil.----
Essas frases me irritaram um pouco e me deixaram surpreso pela personalidade destemida que tomava conta de minha mulher.--Olha...Não sei até que ponto você se aperfeiçoou em humanos, mas fique sabendo que todos nós não temos uma conduta linear rígida. Podemos mudar, assim como você parece estar mudando de delicada e meiga, para determinada e vingativa.--Estou mudando PG? Oh!!! isso me deixa triste. Você pode deixar de gostar de mim. Daí minha vida aqui não terá mais sentido.Disse issso como sentindo um drama muito maior.--Calma...então se direcione para o que era antes. Agora faça as perguntas que acha que deve fazer a moça.----Valdívia se mantinha encolhida, como se alguém fosse agredi-la. A rispidez da conversa parou por ali. Parece que tinha que me impor em certas ocasiões para manter o trajeto constante e agradável dos acontecimentos.--Ok...--- Isis respirou fundo e expeliu o ar como se jogasse fora todas a teorias ruins.---O que seu namorado mandou você fazer.--Ele me ameaçou de morte ,se negasse em ajudar.Chegou até a me amarrar para obter informações.--- Levantou a blusa e mostrou marcas roxas nas costelas da pressão da corda.---Me obrigou a vir com os dois desconhecidos até aqui e dar informações sobre o cofre. Como demorei a responder, ele me agrediu.----Puxou os longos cabelos negros ao lado e apareceu no rosto do lado esquerdo um vermelho arroxeado .--Onde a gente o encontra?--Se não estiver na boate onde você me encontrou, será na casa dele.--O que você fazia naquela boate?--Eu estava presa lá. A ordem era não sair e simular que era uma das garotas da casa. Você me tirou de lá na sorte, em um momento que a vigilância relaxou. Agora estou com medo de me matarem.--Quem é Joacaz?--É ele mesmo , com outro nome. Muda o nome para despistar a polícia.--Onde acho ele na boate?--Fica sempre em uma sala atrás do bar. Na entrada pelo lado , sempre tem alguém de guarda, para bloquear a entrada de estranhos e avisar quando a policia chega.--Ele tem algum chefe que da as ordens a ele?--Não, ate´onde sei.--Você sabe porque querem matar o PG?--Ouvi em uma conversa isolada que é serviço pago.--Como assim?--É quando alguém contrata um bandido ou uma quadrilha para eliminar alguém.----Essa respondi eu, que sabia de cor esse esquema, vendo nos filmes policiais.-- Tá certo PG----Disse Ísis.----Agora vamos discutir um meio de sairmos daqui o mais rápido possível. Eles voltarão para cumprir com o contrato.--É verdade..----Respondi----Agora uma coisa que gostaria de saber , é quem seria essa pessoa que me quer ver morto.--A hora que pegarmos o Fidélio, ou melhor o Joacaz, vamos ficar sabendo.--Você tem ideia de onde está o dinheiro roubado da gente?----Perguntou Ísis novamente a moça, que já estava mais recomposta.--Não sei...mas parece que tudo está centralizado na sala dele, que funciona como um escritório, jogos de cartas etc.--Puxa.. parece que toda a vida esse cara leva a vida como um bandido, e você não desconfiava de nada?--Eu nunca fui a casa dele, Ísis. Eu o conhecia somente em nossos encontros aqui e as vezes em alguma lanchonete. A primeira vez que o vi, ele veio comprar na loja.....e agora... o que vocês vão fazer comigo ?--Nada...continua tudo como antes. Só que aconselho você a não se envolver mais com gentalha.----Aquela resposta me deixou parvo...na verdade nunca esperava uma atitude tão nobre de Ísis. Não sei se foi por minha influencia ou encontrou indícios de verdade, nas palavras da moça, para tomar aquela atitude. Valdívia emocionada e feliz , deu na outra como agradecimento pela sentença rápida e precisa,um grande abraço.--Eu prometo não me envolver com gente estranha daqui para a frente.----disse Valdívia com lágrimas nos olhos.--Ótimo … eu e o PG ficaremos policiando também. Agora peguemos algumas roupas e vamos para um hotel. Aqui não é seguro.----disse Ísis já começando a se mexer. Parece que não se podia perder tempo. E lá fomos nós.


Literatura-55.O Tálamo...

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Na próxima noite, ela saiu por volta das vinte horas, depois de me deixar jantado e com os ferimentos cuidados. Não se esqueceu da arma perto de mim, conferida e municiada. Ainda ouvi o trek da fechadura travando a porta lá em baixo. Senti momentaneamente um vazio dentro do peito. Estava ali inerte,sozinho e sem nada poder fazer, enquanto não sarasse as feridas. A ansiedade vinha em forma de ondas e me deixava com a respiração rápida,suando frio, e um aperto incomum no estômago, só em pensar por quais caminhos sombrios ela iria percorrer. Mas em seguida lembrava, que nada iria acontecer de mal para a garota. Ela sabia se defender como ninguém. Liguei a TV para me distrair, mas a mediocridade dos programas me deram mais tédio. Comecei a conjecturar sobre esse mal que nos assola. Parecem um bando de imbecis, trabalhando para uma multidão de idiotas. Senti a presença de gente. Devagar peguei a arma e a fiquei segurando.Poderia ser que minha hora chegasse,considerando a situação que me encontrava. O sujeito deveria ser bom, pois nada escutei. Mas desta vez(pensei comigo) não vou ser uma vítima.No mínimo, vamos os dois.Lembrei dos filmes de faroeste, onde os dois inimigos ficam frente a frente no meio da rua e um atira em outro simultaneamente. Em seguida uma brisa suave e perfumada invadiu a sala. Sentindo o perfume, imediatamente lembrei da Celina. Apareceu a minha frente, mais bela que nunca, com as mãos para cima,um lindo sorriso nos lábios e disse:----Não atire por favor...sou eu, sua amiga.--Puxa, mas que prazer .Que bom que lembrou-se de vir me ver. Pena que um pouco tarde, talvez.----Disse eu, forçando um pouco a amizade.--Não seja ingrato PG. Você está vivo e isso é o que interessa. E por outro lado, você não sabe a razão de minha visita.--Se veio me convidar para fugir, fique sabendo que estou prontinho da silva, embora meio alquebrado. Com você vou para qualquer parte do universo.--É mesmo ?----Disse ela esboçando um sorriso de satisfação.--- E a sua robô,como fica.--Bom .. podemos levá-la junto.--Acho que não dará certo.----Disse voltando a sorrir.--Cadê o meu beijo?Você chegou e achei que estava com saudades. Esperava mais entusiasmo no re-encontro.--Você é mesmo impossível PG.----Dizendo isso se aproximou e me beijou no rosto. A proximidade dela me deixava as portas do paraíso. Seu perfume era algo inexplicável em palavras. Era como entrar no mundo dos sonhos, mesmo estando acordado e uma tranquilidade e paz invadia a alma, tornando todos os problemas em coisinhas insignificantes.--No rosto? Como irmãzinha?Esperava algo mais consistente.----Repliquei, apostando na minha situação de enfermo. Ela com seriedade, sem protestar, segurou minha cabeça e me beijou na boca. Aquilo para mim, foram os segundos mais longos de minha vida. Tinha medo de desmaiar mediante o turbilhão de emoções que entrou em minha cabeça. O gosto refrescante de menta tomou conta de minha boca novamente e desceu até o estomago , parecendo rejuvenescer todo meu corpo e tirando todas as minha dores. Quando ela se afastou um pouco, fiquei paralisado de êxtase.--Você esta´bem PG?----Perguntou ela preocupada. Ainda segurando seu braço, para não deixa-la se afastar, eu disse:---Puxa, sumiram até as dores. Deve ser o seu beijo sabor de hortelã.----Ela riu e devagar foi se livrando de minhas mãos, que já estavam começando a explorar com malícia. Nisso, um pequeno barulho na janela que dava para a rua. Nunca imaginei uma pessoa tentar entrar por ali. A altura era de no mínimo cinco metros do chão. Mas lembrei que tinha uma pequena saliência, onde daria para se firmar os pés. Então, não seria impossível para uma pessoa com prática em escalar, tentar entrar no apartamento por ali. Peguei a arma novamente. A moça calmamente pôs o dedo a frente da boca, aconselhando silêncio. Ela me ajudou a levantar e a ficar ao lado da porta , onde o indivíduo teria que passar obrigatoriamente. Eu de um lado e ela de outro. Teríamos que pegá-lo de surpresa. O sujeito entrou devagar aparecendo primeiro a arma que levava, apontada para a frente a altura do peito. Pelo visto a sequência era atirar em mim que previsivelmente estaria no sofá. Ao passar a porta acertei-lhe uma cacetada na nuca, com a coronha da minha pistola. O grandalhão desmoronou como um grande saco de batatas, já no chão, fez alguns movimentos estrebuchantes e sossegou inerte. Estendido no carpete parecia maior ainda. Cheguei perto e mesmo com uma tremenda dor na perna pelo movimento rápido,chutei a arma de sua mão para longe. A moça correu e a apanhou rapidamente. Em seguida apontei a minha, para a cabeça do individuo. Celina vendo aquilo,gritou um não, tentando me impedir de atirar.--Tem outra ideia melhor?----Perguntei a ela, ciente que não poderíamos dar chance para o bandido. Nessas horas as decisões tem que serem rápidas se tiver amor a vida.--Deixa eu dar uma olhada nele.----Disse ela se abaixando para examinar o brutamontes.----Cuidado!!----Adverti.

Ela calmamente colocou a mão na garganta do sujeito e sentenciou.:--Ele está morto. Você deve ter quebrado a nuca, o que ocasionou morte por asfixia.--Antes ele do que eu.----Respondi meio irritado pela situação que vinha passando nos últimos dias. Não sabia a razão porque queriam me matar e de não desistirem mesmo perdendo gente.Celina tentou me acalmar, me pondo sentado novamente e ficando ao meu lado. Isso para mim foi como um bálsamo vivificante.--Bom, desta vez não foi preciso minha interferência para salvá-lo.--Mas você me ajudou em muito. Se não estivesse aqui não escaparia dessa.----Ela pegou a minha mão e senti novamente aquela sensação de bem estar que poderia vir de seu perfume raro ou de seu contato aconchegante. Novo barulho de fechadura, agora na porta de baixo, da entrada do apartamento. Era Ísis que chegava. Lá de baixo ela falou em bom tom:---- Sou euuu!!!--Olha...--- Falou Celina.----Ela não pode me ver. Por isso não fique falando comigo, que vais passar por idiota.----Assenti com a cabeça, sentindo um alívio .De certa forma não queria que Ísis a conhecesse mesmo. A frente dela com a cabeça baixada, evitando olhares, vinha a Valdívia escoltada pela minha mulher.--Senta ali----Disse a escolta com rigidez. A moça obedeceu prontamente.--O que é isso? Mais um ?----Falou Ísis ao ver o corpo estendido.-- Pois é … ainda bem que tive sorte e a ajuda do meu anjo da guarda.----Olhei para Celina e ela estava rindo.

Literatura-54.O tálamo...

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Na tarde do dia seguinte cheguei em casa com uma perna , o abdômen e a cabeça enfaixada. As dores generalizadas eram combatidas com analgésicos. Tomava também um potente antibiótico para prevenir alguma infecção. Me sentia um trapo. Não tinha condições de me movimentar rapidamente. Se o inimigo me surpreendesse , seria presa fácil. Ísis dera um jeito no corpo escondido em baixo da cama do hospital. Não me contou detalhes, mas me dei por satisfeito em saber que dera um jeito. Ela era perfeita e eficiente. Me contou que quando estava hospitalizado a polícia foi a té lá para registrar a ocorrência. Hospitais quando recebem pessoas baleadas comunicam a polícia. Fizeram varias perguntas, mas ela se ateve nas respostas diretas e precisas. Nada disse do ataque do bandido no quarto do hospital. Nada iria acrescentar de positivo. Achava que o que nós não resolvêssemos , ninguém resolveria. Na mesma tarde, depois de me deixar confortável na poltrona da sala e com a pistola em baixo da almofada, ela saiu para fazer a primeira investigação. Antes de ir, me deu um beijo e disse:----Se alguém entrar, passe fogo e depois pergunte quem é. Foi procurar a Valdívia, que até agora não tinha aparecido. A loja ficou fechada nestes dias de infortúnio. Não tinha ninguém que pudesse tomar conta a contento, a não ser a moça desaparecida. Ísis foi até a delegacia com a ideia de tirar informações, não do andamento do caso na parte deles, mas principalmente para ver se veria as fichas de criminosos. Como as coisas continuavam devagar por lá, conseguiu ver algumas fotos depois de convencer o investigador com algumas encostadas prometedoras. O sujeito não resistiu e mostrou tudo que ela queria. Ela embora não tivesse visto os assaltantes que me agrediram, procurava alguma coisa a mais nas caras frias e maldosas que desfilavam a sua frente em um grande álbum. O álbum das figuras maléficas. Em certo momento se surpreendeu ao deparar com a foto de Fidélio. Pedindo ao rapaz muito prestativo, a ficha do individuo , ele prontamente a colocou a sua frente. Ficou admirada em saber que o sujeito era um ex-presidiário. A sua ficha incluía assaltos a mão armada e vários assassinatos. Tinha cumprido vários anos de prisão e fugido quando das famosas solturas temporárias que o governo agracia os presidiários em datas comemorativas, como o natal,dia das mães etc.. Estava foragido há vários anos. Com isso Ísis teve a prova que queria. Nesse dia como a hora estava avançada ela voltou para casa, para cuidar de mim.--Nunca fui com a cara desse sujeito mesmo---Disse eu tomando um gole de chá de camomila, preparado com carinho pela minha protetora.----Não sei o que tem as mulheres que se sentem atraídas por esse tipo de gente.---- Ela me olhou sem dizer nada , mas sua fisionomia severa, dizia tudo. Fiquei quietinho, lembrando que estava nas mãos dela. Não convinha provocá-la.--Mudando de assunto,----Disse ela ----Eu peguei a carteira do cara do hospital. Tem alguns endereços que podem nos levar a quadrilha. Vou analisar junto com você para ver se chegamos a uma conclusão rápida.
No jornal do dia saiu a noticia: “Corpo de homem é encontrado em lixo de hospital.” A vítima teria várias passagens pela polícia e estava sendo procurado por sequestro seguido de morte. A polícia ainda não tem pistas do caso.” Uma segunda noticia me chamou a atenção, relativo a um assalto a carro forte dias antes. Foram roubados três milhões de reais. Um segurança da empresa de valores foi morto no tiroteio. Para mim, leigo no assunto, algo dizia que era a mesma quadrilha que me assaltou. Depois que analisamos bem os papéis, cartões de visita e vasculhada a carteira do defunto de uma forma quase científica, Ísis resolveu que iria ao endereço do cartão para começar a procura. Era de uma boate no subúrbio, famosa pelo rolar de drogas e prostitutas. Atras do cartão tinha um nome: Joacaz.Pensei comigo: Como tem bandidos com nomes tirados da bíblia.Algum especialista no assunto deveria explicar isso.Seria um paradoxo?

Literatura-53.O tálamo...

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Antes de abrir os olhos senti uma mão macia e carinhosa, segurar a minha. Sabia quem estava ali. Abri os olhos e a vi sentada na borda da cama de hospital . Ísis segurava minha mão e em seu rosto transparecia a ansiedade, em esperar de mim um sinal de consciência.--Onde você estava quando ocorreu o assalto?--Depois eu conto...agora falemos somente de coisas banais, para ajudar na sua recuperação.--Qual foi o estrago comigo?--Três balas. O médico disse que você teve sorte,todas passaram sem causar muitos danos. A da coxa não pegou o osso nem a artéria. A da barriga passou reta. E a da cabeça passou de raspão,ocasionando uma pequena trinca no osso do crânio , não ofendendo por dentro.----Disse ela com carinha de dó.--É... parece que tenho sorte mesmo. Faz tempo que você está aqui comigo ?--Fui eu quem o trouxe aqui. Desde então não o tenho deixado só.--Obrigado...mas vou querer um explicação sobre onde você estava ontem a noite.--Já disse, que depois explico. Agora você precisa descansar.----Mediante a firmeza incomum que via nas palavras dela, resolvi obedecer. Ademais não estava em condições de discutir nada mesmo. Acordei uma segunda vez e parecia ser um outro dia. Ìsis continuava a meu lado , somente se afastando um pouco quando alguma enfermeira vinha me dar medicamentos. Já estava bem disposto e sentia minha perna esquerda enfaixada na altura do fêmur. O clarão do dia,na janela envidraçada do hospital,atravessando a cortina clara, não definia as horas. Não tinha noção de que lado era o norte ou o leste.--Bom...conte-me agora o que você tem que me contar. Já estou bom e com as ideias no lugar.----Disse com firmeza para a moça que olhava pela janela através da cortina. Ela se movimentando devagar, pegou um pequeno espelho em uma mesinha e se dirigiu até a cama. Pensei no primeiro momento que iria mostrar minha cara,que com certeza estava meio estragada. Mas ao contrário,direcionou o cristal para baixo da cama, em um ângulo que deitado pudesse ver aquele sitio. Consegui ver de relance o que parecia ser uma mão grande e escura.--O que é isso? ----Perguntei já antevendo a resposta.--É um homem morto.----Disse tranquilamente sem nenhuma emoção.--O que faz ele, aí? Porque está aí? ---Já meio nervoso.--Ele veio para terminar o serviço que o outro não deu conta. Falando conforme nos filmes.---Senti um arrepio na espinha ao perceber a situação crítica em que estava. Lembrei-me que antes de o bandido atirar em mim, disse qualquer coisa sobre cumprir ordens.--E agora o que vai fazer com ele?--Quando anoitecer , dou um jeito.----Disse ela tranquilamente.--Que horas são?--Quatro e meia da tarde.--E quando me vão dar alta?--O médico disse que amanhã a tarde o libera.--Nossa... não sei se vou aguentar ficar aqui exposto, esperando. Certamente que na falta deste aqui, vão mandar outro.--Não se preocupe, eu estou aqui. Até agora o vigiei muito bem.--Certamente, eu muito a agradeço mas ainda quero saber onde você estava na noite do assalto.--Quer saber mesmo ? Você não vai gostar nem um pouco.----A claridade na cortina esmaecia, denunciando o fim da tarde. Me incomodava também, saber que estava deitado sobre um defunto.


 Era encrenca que não se acabava mais. Não entendia porque os problemas apareciam de graça em minha vida. Quando parecia que tudo corria bem , de repente acontecia alguma coisa. Sempre algo inesperado e chocante. Ainda não sabia da Valdívia. Porque não tinha aparecido no hospital?Sera´que fora sequestrada? Muitas dúvidas pairavam em minha cabeça mas o mais urgente era a explicação de Ísis.--Há muito tempo que venho sendo assediada pelo Fidélio. Procurei ignorar, até que antes de ontem ele me pôs em uma situação difícil.Foi tipo uma chantagem , imagino.----Eu escutava com os pensamentos remoendo dentro da cabeça, mas aguardava com paciência o desfecho e já tinha certeza o que seria. Porem estava enganado.Ele se achegou em um momento que você estava no banheiro e a moça na cozinha e me impôs encontrar com ele, o que seria ontem. Disse que era um caso urgente e que sua vida estava correndo perigo. Não havia meio de falar ali perto de todos, daí irmos para um lugar seguro .Eu sem saber do que se tratava assenti. Mas depois que já tinha saído de casa e estava com ele comecei a analisar a situação de uma forma mais racional. Muitas perguntas tinham que ser feitas e as informações primeiras, não convenciam .Quando chegamos em nosso carro, em um lugar ermo e escuro, ele mandou parar e logo começou a me atacar de todos os lados. Queria mais agir do que falar. Deixei rolar por um momento, imaginando se não estava me tornando uma humana de verdade. Antes que a coisa ficasse incontrolável dei um stop. Daí comecei a apurar o porque que ele queria se encontrar comigo. Com a maior cara de pau, ele disse que simplesmente queria usufruir de minha beleza, longe de você. Perguntei sobre o que me tinha dito na noite anterior, a respeito de risco de morte etc.Disse que era somente balela para me trazer para o esquisito. Fiquei irritada e liguei o carro para retornar. Já estava com medo que tivesse caído em um esquema criminoso e que você estava sem proteção. Ele quis me deter usando de força, mas logo percebeu que a coisa não era como pensava. Inteligente se pôs em seu lugar e ficou quietinho o caminho todo de volta. Pouco antes de chegar em casa ele pediu para descer em um posto de combustível. Parecia um pouco assustado. Eu preocupada com você, acelerei para chegar mais rápido. Quando cheguei em casa, foi que vi a besteria que tinha cometido. A porta de baixo estava aberta, e na sala, você jazia desmaiado. Pedi imediatamente uma ambulância.--E a Valdívia, não a viu? Ela estava lá comigo. Ela, esperando o Dom Juan e eu esperando você.--Não havia ninguém no apartamento a não ser você, deitado de costas ao lado do sofá. E antes que você comece a me pichar, digo mais uma vez, que a coisa não passou de uns amassos.--Acredito nisso...E no mais quem sou eu para exigir fidelidade?Como a maioria dos homens não passo de um crápula machista,cafajeste e sem-vergonha.--Então parece que estamos conversados. Agora vamos tratar de pensar e tentar descobrir quem nos roubou. Em uma primeira instância , acho que o Fidélio e a moça estão envolvidos nisso.--A moça ?Como assim?--É fácil...ele conquistou a confiança dela e ela passou as informações sobre suas economias , onde ficava seu cofre, etc. Talvez esteja errada, mas podemos começar por aí. Vamos encontrá-la, dar um aperto e depois a gente pega ele. E tem que ser rápido , antes que troquem todo o dinheiro. Você consegue se lembrar das fisionomias dos que o assaltaram?--Acho que sim...--Ótimo. Vamos conferir com as fichas da polícia.--Polícia? Vamos mexer com eles? Podem ser que até estejam envolvidos. Nossa polícia é corrupta igual ao governo. Não se pode confiar em nada neste país.--Você vai ficar em casa, fechadinho, sem se preocupar com nada, até se recuperar bem. Eu tomo todas as providências. Você ainda confia em mim?--Claro...sempre confiei. Você é o amor de minha vida.----Ouvindo isso ela se achegou com delicadeza e me beijou o rosto. Estávamos em paz.                                                 

Literatura-52.O tálamo...

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Assim continuou nossa rotina, mas a cada dia eu ficava mais apreensivo. Já não via de bom grado a presença do rapaz em casa. Muitas vezes procurava evitá-lo e suas conversas já me irritavam. Alguma coisa rolava nos bastidores que eu não sabia ou seria uma enorme desconfiança adquirida pelo tempo passado, que tomava conta de minha cabeça. Certo dia, fechamos a loja e Ísis disse que ia sair para um compromisso. Fiquei desconfiado , porque nunca ela saia só e também nunca falou de compromissos. Mas como sou uma pessoa democrática, assenti de bom grado e agradeci que ela me desse a informação. Fiquei eu e Valdívia sozinhos. Ela como sempre, esperava o namorado por volta das oito da noite. Eram sete e já estava toda bonita e cheirosa para recepcionar o rapaz. Não resisti e comecei a abraça-la com insistência. Ela se desvencilhava, com medo que o outro chegasse de repente a pegasse meio desalinhada.--Não gosta mais de mim é? Falei com cara de menino malcriado.--Gosto, mas é que a situação não é favorável. Ele pode chegar a qualquer momento.----Vendo que nada ia obter, comecei a puxar conversa. ----Ísis falou alguma coisa a você para onde ia?--Não. Nada me disse.--É estranho , pois nunca ela fez isso.--Deve ter ido visitar uma amiga ou coisa do gênero.--Que eu saiba a única amiga dela é você. Não conheço nenhuma outra.--É... os homens sabem muito pouco das mulheres mesmo. Não por quererem , mas por não se interessarem pelo que elas fazem. ----Ouvindo isso fiquei quieto. Não estava afim de discutir o relacionamento homem/mulher, principalmente aquela hora e com quem estava também meio amarrado emocionalmente.Passava das nove e ninguém aparecia....Nem Ísis, nem o namorado de Valdívia. Nisso a campainha tocou. A moça se levantou e disse : ---É ele. Eu assenti com a cabeça imaginando que Ísis levara sua chave. Valdívia foi balançando o bonito traseiro escada abaixo para atender. Eu estava sentado no sofá maior que fica em frente a TV e tentava ver alguma coisa de um documentário interessante,meus olhos nas imagens, mas meus pensamentos longe, tentando decifrar onde minha mulher teria ido. Escutei conversas em tom baixo que subiam a escada devagar.

Quando nivelaram com o piso em que eu estava, notei que não era o namorado da Valdívia que estava com ela. Me levantei rapidamente, mas o tempo era curto e já estavam apontando uma arma para mim. Eram três elementos: Um pardo, um branco e um negro. Pelas suas fisionomias se deduzia que eram pessoas más e que poderiam matar sem a menor consideração. Um deles segurava a moça com o braço dela dobrado para trás, como fazem os policiais.Outros dois chegaram rapidamente perto de mim. Um deles disse:---Onde está o seu cofre.--Não tenho cofre.----Imediatamente levei uma coronhada na cabeça que me deixou zonzo. Uma dor aguda atravessou minhas têmporas. Senti que um líquido quente corria pela minha nuca,encharcando minha camisa. Certamente era sangue do ferimento.O indivíduo disse com voz baixa: ----Vou perguntar outra vez...se a resposta não me satisfazer dou um tiro no seu saco. Onde esta´o seu cofre...----Acreditando que poderia levar um tiro, indiquei com a cabeça onde se encontrava o pequeno cofre. Nele, costumava guardar parte das economias, já que não acreditava muito no sistema bancário, desde que um ex-presidente dera um golpe e arrasara com o sistema, bloqueando todas as contas correntes e poupanças. Muita gente chegou até ao suicídio por perder toda suas economias. Para mim, os bancos tem ligações estreitas com os governos. Basta um estalar de dedos la de cima, que eles bloqueiam as contas. Ainda mais em um país onde a democracia não passa de uma farsa. Assim eu não deixava minha conta bancária muito gorda e preferia por no cofre. Com a Ísis por perto a segurança era total. Só que naquele momento, quando eu mais precisava,ela não estava ali, e eu maldisse essa hora. Levei os indivíduos até meu quarto e sem outra opção abri o cofre para eles. O dinheiro que tinha lá era em dólares e dava para comprar uma casa.Vi os bandidos colocarem tudo em uma sacola de lona amarelada, dessas que se fecha, amarrando a boca com um cadarço. Esperava que a qualquer momento minha esposa chegasse e desse um fim naquilo, do jeito dela. Não iria bloqueá-la. Me levaram novamente para a sala . O outro continuava a segurar a moça, que estava pálida de terror. O que me apontava a arma, agora estava a uma distância de dois metros. ----Olha ...nada pessoal , mas me deram uma ordem e tenho que cumpri-la. Imaginei que ia apertar o gatilho e comecei a me movimentar rapidamente. Uma bala atingiu minha coxa esquerda. Outra pegou a lateral da barriga e uma terceira atingiu minha cabeça. A luz se apagou de repente, caí em um mundo de escuridão e silêncio. Nem luz, nem sons ,nem pensamentos.

Literatura-51.O tálamo...

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Esse foi o relacionamento mais difícil que tive com mulheres. Tinha a impressão que ela me salvava de situações perigosas e ao mesmo tempo, aproveitava para me provocar. Tudo rapidamente, com diálogos curtos e sem dar muita atenção a minha conversa. Eu sou muito malicioso e poderia ser que estivesse até enganado, quanto a provocação. Tem gente que não consegue separar o amor fraternal com o carnal. Posso ser um deles. As vezes quando lembrava dela me imaginava meio louco. Será que não era fruto de minha imaginação? Não poderia ser porque as varias vezes que me salvara foi muito real . A loucura não chega a tanto. Poderia ser também o meu anjo da guarda. Havia muita literatura a respeito, falando desses seres celestiais que nos protege dos males.E na própria Bíblia diz: “Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.”(Sal.91:11).Não acho que sou um merecedor de tanta atenção, porque não sou flor que se cheire.Mas quem sabe de tais mistérios? Ao meu lado um policial perguntava se eu estava bem.Quando voltei à loja, Ísis imediatamente reparou nos pequenos cortes ocasionados pelos estilhaços de vidro. Contei o ocorrido e elas ficaram surpreendidas pela minha sorte em ter escapado ileso. Daí em tom de brincadeira, eu disse que tinha um anjo da guarda muito especial e eficiente. Elas tomaram aquilo como uma expressão banal, sem dar maior valor a minha conversa.Valdívia ficou com a gente por mais alguns anos. Minha companheira nunca desconfiou de nosso relacionamento. Mas chego a duvidar que ela não sabia. Acho que fazia de conta que ignorava. Mulheres inteligentes agem de forma complexa. Depois que a velha mãe de Valdívia faleceu, ela voltou a morar com a gente. Já era uma pessoa da família. Vivíamos um faz de conta, que nada existia entre nós a mais do que um relacionamento amigável. Um dia me comunicou que tinha um rapaz interessado em namorar com ela. Queria falar comigo a respeito. Conversamos e ela pediu permissão se caso não tivesse outros planos. Expliquei que não poderia interferir na felicidade dela e muito menos obriga-la a continuar na mesma situação. Nossos amores ainda não foram colocados em pratos limpos. Tinha que haver uma reunião a três para decidirmos. Mas no fundo eu temia um pouco a Ísis. Embora já se manifestasse anteriormente sobre nós, poderia ter mudado de opinião. Era carinhosa , delicada, mas eu sabia que por trás de tanto carinho se escondia uma força devastadora. Então ela poderia namorar e se casar, que tinha a minha bênção. E se um dia por acaso houvesse algum contratempo, poderia me vir procurar. Ela me abraçou e disse:---PG,você além de ser meu amado é também meu pai. Um pai que nunca tive. ---Fiquei emocionado com suas palavras e por um minuto, quase pedi para ela desistir e continuar morando comigo e a Ísis. Mas ponderei e deixei o egoismo de lado.
                                                             
Valdívia começou então o namoro com o rapaz que tinha me falado. Certo dia ela me avisou que o traria para o conhecermos. As duas prepararam um bolo com chá para recepcionar o convidado especial.O rapaz tinha uma boa aparência e modos calmos, com pouca fala e muita observação. Eu geralmente desconfio de gente desse tipo, mas como era do relacionamento da moça, por ela a gente considerava.Chamava-se Fidélio. Mal sabia ele que pelos mares que estava navegando eu já tinha singrado e continuava, devagar e ao sabor do vento, embora com menos frequência. Notei também nas frestas das conversas que ele observava de modo disfarçado a Ísis. Não o culpava porque ela era uma mulher que atraia os homens de uma forma especial. Sem querer as pessoas a olhavam. Os homens com interesses eróticos e as mulheres com inveja. Logo ele ficou frequentador assíduo de minha casa. Devagar foi conquistando confiança e logo passamos a incluí-lo em nossos eventos. Chegava ao escurecer, jantava conosco, namorava a moça na sala e assistíamos filmes na tv. Ocasionalmente comprávamos pizza para animar a reunião. Mas mantive uma certa distância no relacionamento, não deixando ultrapassar um certo limite . Alertei Valdívia para não leva-lo em seu quarto. Não gostava de repartir minha casa com um concorrente. Se quisessem fazer algo mais interessante que fossem para um motel. Em minha casa, não. Passou cerca de um ano e a situação continuava na mesma. Um dia conversei com a moça e pedi explicações, embora nada tivesse contra. Eram adultos e encaminhavam as coisas conforme queriam. Ela me disse que esperavam uma oportunidade de um emprego melhor para ele se tornar mais independente. Achei o assunto meio sem fundamento , mas nada disse para não contrariar a moça. As mulheres tem a tendência de se entregarem totalmente e com isso muitas vezes se tornam cegas para observar certas coisas relacionadas ao amado. Quanto a nós, a coisa ficava cada vez mais esporádica. Eu não ligava para aquilo e deixava as águas correrem. Afinal, não tinha o direito de fazer exigência. Certa noite, conversando com Ísis, percebi que ela sabia de todas as nossas tramas. Gostava de mim , era muito amiga da moça e fazia vista grossa quando via algo suspeito. Tentei dar uma explicação furada, mas logo ela interviu, dizendo que eu não deveria me preocupar com ela e sim com o namorado da Valdívia.Aquilo me alertou e procurei saber do que se tratava.--O que esta´acontecendo? Ele a esta assediando?----Lembrei dos olhares disfarçados do rapaz em cima dela.--Digamos no linguajar de sua gente: Esta´me comendo com os olhos.----Respondeu com uma carinha de marota.--E você como reage? Disse eu meio preocupado, temendo que houvesse uma troca que em nada me agradaria.--Não se preocupe. Não tenho intenção de o trair, como dizem por aqui.

Literatura-50. O tálamo do tempo

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Às vezes eu me olhava no espelho e via que as rugas iam se acentuando gradativamente. Meu cabelo passava do grisalho para um branco mais acentuado. Meu corpo também já estava mais lento e minha cabeça mais filosófica. Olhava em minha mulher e via que continuava suave e fresca como uma manhã de primavera. Já estava atraindo olhares curiosos quando a gente saia junto. Muitos pensavam que era minha filha e alguns que era até minha neta. Por um lado eu não ligava e ficava até contente com comentários tipo: “Será que ele dá conta” ?Um dia perguntei a ela quanto tempo achava que durava aqui na face da terra.A resposta veio de supetão e sem rodeios:--Minha durabilidade é de duzentos anos,mais ou menos.--E quantos anos você tem?----Perguntei preocupado.--Estou com quarenta e sete. ----Disse, erguendo as sobrancelhas.--Quer dizer então que você vai-me enterrar e ficar por aqui um bom tempo? ----Ela fez cara de choro e me abraçando, disse:--Não quero pensar nisso e muito menos em ficar sem você.--Mas vai acontecer um dia. ----Falei olhando em seus olhos marejados. Senti também uma dor no coração em ver sua tristeza em falar sobre aquilo. Ela apertou-me mais forte, falando baixinho.--O dia em que você se for, eu me desligo para sempre. ----Aquelas palavras me deixaram mais emocionado ainda, mas fiz força para conter a angustia e a bola formando na garganta. Tentei amenizar dizendo que quando eu me fosse ela poderia ficar com tudo e ainda arranjaria um marido mais jovem.---Você se esquece que eu não tenho o espírito das mulheres humanas, querido. ----Disse se afagando mais em meu peito. ----Não estão em meus interesses, bens materiais ou outro homem, além de você.----Perante tal confissão, emudeci, conseguindo somente acariciar sua cabeça de cabelos macios. Nem tentei falar, porque o bloqueio na garganta era total. Nestas horas gostaria que minha vida se prolongasse por mais cem anos para estar ao lado dela todos os dias, por mais tempo. Era definitivamente a mulher de minha vida. Considerava-me o mais privilegiado homem da terra. Acho que era para compensar o passado triste e sofrido. Se morresse dali alguns dias, iria feliz, considerando as contas equilibradas, com o bem recebido, superando o mal do passado. A balança dos sofrimentos e das bem aventuranças , para mim estava no meio, nivelada.
 
                                                               
Certa manha, deixando as duas na loja fui até uma banca de jornal próximo, comprar um matutino. Gostava de ler na parte da manhã enquanto elas conversavam, esperando alguma compradora. A loja, devagar estava se tornando especialidade em calçados femininos. A banca de jornal ficava a três quarteirões da loja. Depois do primeiro, dobrava-se a direita e andava mais dois. O sol estava enchendo todos os espaços de alegria e vida, com sua luz poderosa. Na segunda rua tinha um movimento incomum de carros, por ser uma ligação com a saída da cidade. Ia bem tranquilo pela calçada, quando escutei gritos e um ronco fora do comum, como se um veículo estivesse participando de uma corrida em um autódromo. Houve uma batida seca dez metros atrás. Mal deu tempo de virar, vi um veiculo rodopiando em minha direção. Percebi rapidamente que tinha uma moça a minha frente. No segundo seguinte, ela pulou sobre mim, me jogando com a costa na parede em um nicho da coluna do prédio. Bati com força e senti meu corpo inteiro doer com o impacto. Com ela me apertando na parede, vi que a minha frente escureceu. Era o carro que batia com tudo, deixando eu a moça grudada em um pequeno espaço livre, protegido pela coluna. Mediante tamanho tumulto ainda deu para perceber o corpo da beldade me pressionando com uma maciez tentadora, contra a parede. Totalmente colada em meu corpo, fartos seios me pressionavam em cima no pescoço e em baixo coxas roliças tiravam o movimento de minhas pernas. Uma chuva de pequenas contas cúbicas , atingiu mais ela do que eu. Estava até gostando da posição, embora durasse apenas um minuto. Tão logo as latas se acomodaram tomando a forma da parede, ela me soltou. Dai que a reconheci. Era a Celina novamente me acudindo. Olhei admirado, a bonita amiga, já velha conhecida.--Eta mundo pequeno. Olha nos se encontrando novamente.--Olá PG. Prazer em vê-lo.--O maior prazer foi meu. ----Disse com cara de malicioso. Ela ignorou. ----Vamos até a loja e te sirvo um café.--Obrigada, mas não posso. Tenho outros compromissos.--Puxa vida,parece que nunca podemos conversar a vontade, trocar umas idéias sem que o relógio nos pressione?Pensei que você só cuidava de mim. -----Disse gracejando. Começava a chegar socorro para o acidente. Na verdade, era um foragido da policia que estava ao volante do carro capotado. Parece que estava resolvido o problema dele e da policia, pelo que dava para ver no carro, mais parecido com um pastel na parte do motorista. Eu ainda segurava o braço da moça, como pretexto mais para não deixá-la ir do que para me proteger.--Responda-me então antes de ir, uma questão que me incomoda. ----Disse eu, enquanto era puxado do beco por ela, por cima das ferragens.--Pode falar... -----Disse ela, estando já a uma distancia segura do veículo. Coisas que usam combustíveis costumam explodir sem menos esperar.--Eu queria saber até quando, eu vou ser salvo por você.--Fique tranquilo, que vai durar muito ainda, desde que não procure encrenca. Vai chegar ao mínimo nos noventa.--Há... ----Gritei satisfeito com a resposta. -----Exatamente o que queria saber. Mas eu não procuro encrenca. São elas que se me apresentam. Olha agora por exemplo. E no caso do acidente com o ônibus, também.--Bom.. você tem rasão. Ainda bem que cheguei a tempo.--Cuide-se PG.----Peraí...você não vai sumir de repente sem ao menos se despedir de um velho amigo dependente.--Está bem...Até mais então.----Dizendo isso me deu um abraço, que foi o melhor abraço do mundo , igualando somente com o da minha amada. Por um instante pareceu-me estar no mesmo lugar paradisíaco onde estivera em sonho tempos antes. O seu perfume já conhecido me envolveu deixando minha cabeça além de minha vontade. Se ali ela dissesse:--- Vamos embora comigo--- Creio que não resistiria o convite e largava tudo sem dar explicações. Parece que ela sabia dos efeitos que me causava e deixou o contato mais curto no tempo. Se afastando, deu um chauzinho e em seguida sumiu como se fosse um vapor de água subindo na atmosfera. Lembrei do mito das sereias. Essa se fosse uma, estaria dentro das especificações em atrair os homens. Mas ela era o contrário. Em vez de destruir, salvava.

Literatura-49.O tálamo...

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Um dia, no futuro, sonhei com minha salvadora, quando já estava vendo o acidente como uma coisa do passado e sem valor emocional. Estava em um bonito lugar cheio de jardins, animados com pássaros e abelhas que perambulavam pelas cheirosas flores. Pequenos córregos de água cristalina alimentavam um lago não muito grande, onde aves nadadoras faziam pequenas ondas nas águas límpidas e calmas. Parecia a área de um templo de monges, com aquela tranquilidade e paz, características de tais lugares. Só que não via nenhum templo ou qualquer tipo de construção pelo menos nas proximidades. Sob as arvores, sentadas em bancos confortáveis, pessoas conversavam, outras liam e outras simplesmente admiravam a paisagem que era maravilhosa, emoldurada por montanhas ao longe, com seus picos nevados.Eu caminhava devagar pelas vias que serpenteavam entre os canteiros verdejantes, calçadas com pedras de granito verde. Uma moça vinha em minha direção, sorrindo como se visse um velho conhecido.Pensei que alguém tinha se enganado, pensando ser eu uma outra pessoa.Daí ao chegar perto ela disse:--Oi PG,... Você por aqui? Que surpresa agradável. Como vai?--Daí que a conheci.--Meu anjo da guarda? ----Perguntei, ainda em tom de duvida.-- Não...pode me chamar de Celina.--Então, muito prazer em vê-la pela terceira vez. Hoje tem tempo para uma conversa?---Só cinco minutos, que tenho um compromisso.--Um compromisso em um lugar deste? Onde tarefa ,parece ser a ultima coisa em que se pense?--Estou só passando por aqui.--Sentamos em um banquinho próximo.--Bem...Parece que agora vamos conversar de fato. Quero fazer a tempos uma pergunta: Porque você me salvou e deixou o homem que me agarrava, morrer?--PG, tem coisas que você não entenderia, pelo menos agora. Digamos que o dia dele chegou e o seu ainda não. E que seguimos quer queiramos ou não, uma lei justa, infalível , porém implacável.--Quer dizer que vai ter uma hora que não poderei contar contigo?--Exatamente. Mas não se preocupe. Vai demorar e quando chegar a hora, o estarei esperando no outro lado. Você não gosta de me ver?--Você falando assim está me induzindo ao suicídio. Sabe que poderei não resistir a tentação de estar ao seu lado.--Para tudo tem seu dia e sua hora. Não tente forçar as coisas, que daí tudo pode se complicar e o arrependimento é enorme.--Eh Eh... Estava brincando.--Eu sei... Agora é hora de você acordar.                                                                          

Meio zonzo, acordei com as palavras na cabeça... ”É hora de acordar”. Estiquei a mão pelo escuro e virei o relógio com o mostrador do meu lado. Marcava três e meia. Escutei um pequeno barulho vindo de baixo, pelo lado da rua. Parece que mexiam na porta de aço do comércio. Falei baixinho com Ísis e ela me respondeu prontamente:--Já escutei também... Vou ver o que é.----Dizendo isso já estava em pé colocando o robe cor de rosa. Meio preocupado pelo que viesse acontecer , tentei orientá-la para não fazer alguma besteira.--Espera aí... Não vá matar outro ladrão. Vamos machucá-lo somente e chamar a policia. Estou cansado de fazer enterros.--Você é quem manda... Enquanto você telefona, eu desço dar um jeito. ----Rapidamente ela pegou um lenço grande e não sei onde, arranjou uma peruca loira, que imaginei ser de Elisa. O apartamento sobre o comercio, tinha duas entradas. Uma pela lateral da loja que a gente usava mais em fins de semana, e outra por dentro da mesma por intermédio de uma escada que ficava escondida atrás do banheiro. A moça desceu pela primeira, abriu bem devagar a porta da rua e viu um individuo tentando arregaçar a porta com um pé de cabra. A brisa fresca da madrugada, acariciou seus cabelos artificiais. Ao ver uma mulher, o ladrão não se intimidou e disse:--Se manda. ----Com cara feia, como se alguém o atrapalhasse em um importante serviço.--Não posso... Você está violentando a porta de minha loja. Vou dar uma chance para você ir embora sem se machucar,desde que prometa não vir mais tentar me roubar. ----Na porta já havia um vão de mais de um palmo na parte de baixo onde ele fazia a alavanca. Ouvindo aquilo e confiando em suas forças de macho, resolveu partir para cima dela com a barra de aço levantada. Como ela não se mexeu nos primeiros momentos, ele se embalou todo para dar uma ferrada de cima para baixo na cabeça da moça. O movimento acordou a vizinhança, mas ninguém aparecia, com receio. Nessas horas é cada um por si. Se morrer , terás uma bela plateia assistindo o ato de sua morte. Porém ninguém irá comparecer a polícia como testemunha. Eu, ligando para policia, pedi urgência, com medo que Isis matasse o elemento. Com rapidez incrível ela se desviou no ultimo instante em que o aço descia zunindo, muito próximo de sua cabeça. Enquanto o ladrão se desequilibrava com o golpe no ar, um chute certeiro atingiu sua perna direita, dobrando-a abaixo do joelho e expondo pontas de ossos brancos. Antes mesmo de terminar o berro de dor, levou outro chute do mesmo calibre na perna esquerda. Depois disso, ela calmamente subiu a escada de volta ao apartamento. Encontramo-nos no meio, quando eu já descia em socorro do ladrão.--Está tudo bem... ----Disse ela. Pode voltar que ele não está morto. Tinha um lenço tapando o rosto por prevenção, segundo ela.Na rua, o sujeito não parava de gritar de dor, deitado, sem poder levantar. Quando a polícia chegou, veio também uma ambulância.Quando liguei para eles sugeri que a mandassem, pois teria gente machucada. Bateram em nossa porta e Isis disse para eu ficar que ela iria resolver. Próximo a janela de cima deu para escutar o dialogo entre eles.---É da senhora o estabelecimento?--Sim. Escutamos o barulho e meu marido chamou-os.--Ele foi agredido por alguém... A senhora não sabe nos informar?---Infelizmente, não. Fiquei com medo de sair à janela e levar um tiro.A senhora pode assinar aqui, trata-se do boletim de ocorrência, de tentativa de roubo. Agora a sua porta vai precisar de reparos.--Tudo bem, obrigada. Amanhã providencio... Bom dia. ----Em poucos minutos ,tudo estava calmo na rua novamente. Já era quatro e meia da madrugada. Dali a pouco viria à alva, clareando as frestas da veneziana. Não daria para dormir mais, devido à agitação da noite. Fui até a cozinha fazer um café. Ísis não me deixava só.--Perdeu o sono também?--É... Acho que perdi. ----Eu sabia que aquilo era apenas um inocente fingimento. Afinal eu tinha uma super-mulher morando comigo, e não tinha choramingos sem motivos, dengos ou outras coisas características do sexo feminino. Fui até ela e a abracei com paixão, me considerando um felizardo. Quem teria uma, igual a ela?Dentro de alguns dias apareceu na rua um individuo da policia civil, fazendo perguntas. Nada obteve de concreto. Ali como em todo o país imperava a lei do silêncio. Essa lei, muito mais eficaz que as dos livros jurídicos, pelo descrédito que o povo tem nos governantes. Segundo os jornais, o depoimento do ladrão era que: Apareceu, de não sei onde, uma loira com um lenço no rosto e o agrediu. Mas a ferramenta e a porta forçada o incriminavam. Alguém lançou um boato que em nosso bairro tinha uma super–heroína que semelhante a “mulher maravilha”, defendia os fracos e oprimidos e tapava uma lacuna deixada pelo sistema, com a falta de segurança. O boato até foi bom porque os bandidos ficaram com receio de agir por ali. Alguém teria visto a moça em ação, mas ficou em duvida pelo cabelo e de não ver o rosto. E nesses casos o melhor e ficar calado. O assunto só e comentado nas mesas dos bares, nos bancos das praças e nos salões de barbeiros. Tudo entre amigos e em voz baixa. Estávamos tranquilos quanto ao desfecho do processo. Logo trouxemos Valdívia e a mãe para a nova cidade. Ficaram conosco por alguns meses até acharmos uma casa tranquila e de preço razoável em um bom bairro para alugar. A velha mãe da moça,tinha suas manias e foi um pouco difícil estarmos todos no mesmo apartamento. A velha me elegeu como seu inimigo, assim do nada e de graça. Parece que ela tinha que ocupar a mente com algo, para passar as horas demoradas da senilidade. Mas a amizade que tinha pela filha, ajudava a me dar paciência. Apartamentos têm a tendência a ficarem pequenos quando se aumenta o numero de pessoas. Não tem quintal e a privacidade acaba. Não se podia andar de bermudas que a velha ficava de olhares repreensivos. Logo começou a dar indireta. Parecia que ao contrario da filha, a velha não ia com minha cara decisivamente. Esforcei-me por conquistá-la com agrados e presentes, mas não houve jeito. Ísis se divertia com a situação e me aconselhava a ter paciência já que era uma conjuntura passageira. A minha amizade com a filha superava certas expectativas. Percebia que ocasionalmente no trabalho quando ficávamos muito perto a situação as vezes obrigava a alguns esbarrões e pequenos contatos. A moça não protestava se o achego demorava um pouco mais do que era necessário. Com isso fui pegando confiança. Logo já fazia algum carinho, ao que ela correspondia prontamente. Em minha consciência ficava tranquilo, pois lembrava das palavras de Isis quando voltou, dando a entender que não ligava para isso. Isis tinha uma outra filosofia de vida quanto a homens e mulheres. Esperava eu que não fosse, ela em relação a outros , mas com o tempo verifiquei que isso era apenas um pequeno temor de minha parte. A minha implicância com a velha mãe, começou a aumentar com o tempo. Um dia, estando Isis atendendo o comércio enquanto Valdívia almoçava comigo no apartamento, notei que ela ficava de olho em nossos movimentos, escondida em seu quarto. Pela fresta da porta entreaberta ela espiava disfarçadamente. Propositalmente comecei a encostar na moça enquanto esta lavava os pratos na pia. Cheguei por trás e encostei devagar e com as duas mãos acariciei os seios fartos. Tinha a plena certeza que a velha estava vendo. Queria além de provocá-la, mostrar que o controle estava comigo. Nunca gostei de ingratidão. Talvez fizesse até errado com essa ação, mas no fundo, queria que a velha entendesse que estava recebendo um favor. Depois desse dia ela virou a cara de vez. Não ficava mais no mesmo aposento, se eu estivesse presente. Por outro lado, nada falou, nem para a filha nem para minha mulher. Para mim também nem era necessário tomar satisfações. Acelerei as providências para arranjar com mais urgência uma casa para elas se mudarem. Por sorte, ficaram somente três meses com a gente. Nesta vida tudo passa. O ruim e o bom. É só esperar. O ruim era a velha implicante. O bom era sua filha, que nas janelas do dia, estando sós, dávamos um pega legal. No dia da mudança ela me disse: --E agora como vamos fazer?---A gente dará um jeito. Sempre tem um.--Ela assentiu com um sorriso, baixando a cabeça. Eu tinha um pouco de receio se Isis descobrisse, mas qual homem que resiste aos encantos femininos?Pensando assim, corria os meus riscos.E assim continuou nossa vida.