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Literatura-47.O tálamo...

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Levantamos bem cedo e seguimos viagem rumo a oeste. Era o lado da riqueza e da prosperidade. Tão logo estivéssemos instalados, levaríamos Valdívia. Ísis levava o caminhão e eu ia atrás com o carro todo vermelho de poeira da noite anterior. Quando paramos para almoçar em um posto de estrada, mandei lavar o veiculo para tirar todo vestígio da viagem funérea. Depois de viajarmos quase duzentos quilômetros chegamos a uma grande e bela cidade. Antes passamos por varias, as quais não achamos muito expressivas para se montar um negócio. Tinha que ser uma cidade ampla para passarmos despercebidos. Já era a tarde quando paramos em uma grande avenida. Fui até uma banca de jornal comprar o noticiário local.
Na cabine do caminhão eu e Ísis estudamos o caderno de imóveis, procurando algo para alugar. Achamos um que tinha um apartamento na parte de cima em um determinado bairro. Desci e fui conversar com o dono da banca e tirar algumas informações. Ele me disse que o bairro era bom, próspero e próximo do centro da cidade. Disse também que o valor do aluguel estava razoável. Era tudo que queria saber. Ligamos para a imobiliária e ficamos de ver o imóvel outro dia de manhã. Essa noite levamos o caminhão e o carro para um posto de combustível e dormimos na cabine do caminhão, estacionado em um grande pátio do posto, ao lado de outros caminhoneiros que levavam o mesmo tipo de vida, que a gente experimentava provisoriamente. Outro dia à tarde, já estávamos descarregando as coisas na nova morada. Achei que até aquele momento, tudo corria até fácil demais. Esperava alguma dificuldade para nos instalar. Depois de descansar dois dias, fui levar o caminhão de volta e dar um alô para Valdívia se providenciar. Isis ficou para arrumar toda aquela parafernália de móveis e objetos, que nos dois dias não conseguimos por tudo em ordem.O apartamento em cima do comercio era grande e tinha quatro quartos , sendo duas suítes. Era o suficiente para duas famílias pequenas como as nossas. Por algum tempo, Valdívia e a mãe poderiam morar com a gente. Enquanto ela não chegasse, eu e Isis tocaríamos a nova loja. Na volta, peguei um ônibus. Viajar de ônibus tem algumas vantagens: Tem-se um motorista e a viagem é tranquila, sem preocupações com o trânsito.Mas como sempre, comigo as coisas aconteciam diferentes, rápidas e sem esperar. Peguei um lugar justamente ao lado da janela de emergência. Acima do vidro estava escrito em letras vermelhas as instruções de como abri-la. Ao lado, uma alavanca também pintada de vermelho com uma seta desenhada em branco, indicava a posição de movimento para funcionar o dispositivo. Olhei aquilo meio desconfiado, tendo o cuidado de não bater na alavanca, por acidente. Imaginava a porta se abrindo e me jogando para o lado de fora em alta velocidade. Com algumas paradas, a viagem demorava cerca de três horas. À tarde estava bonita e os vidros refletiam a luz do sol amenizada pelo fumê, no lado de dentro. O ar condicionado funcionava a toda e o seu ruido misturava com o do motor, produzindo uma sonolência gostosa nos passageiros. No decorrer do percurso , cerca de cinquenta quilômetros antes do fim da viagem, ao passarmos por uma ponte com pista dupla, um veiculo que vinha em direção contraria, se perdeu e deu uma abalroada na lateral do ônibus, fazendo o motorista deste perder o controle do enorme veículo. As pilastras da ponte foram se quebrando em uma sequência, como gravetos,com um barulho de metralhadora. O veiculo despencou pelo ar livre até as águas escuras de um caudaloso rio, até àquela hora tranquilo e vagaroso. Entre a gritaria e o mundo virando de cabeça pra baixo, agarrei na tal alavanca e forcei-a no sentido indicado. Com o ambiente rolando é muito difícil o posicionamento de saber ao certo onde é pra cima e onde é pra baixo. Era questão de segundos até o ônibus bater na água. Dai seria tudo mais difícil. A porta não se abriu. Estava emperrada. Esperei o baque do veículo na água. Me agarrei na alavanca com uma mão e com outra na borda do banco, encostando bem o corpo para ter apoio na batida. O impacto da lataria com a água foi amenizada porque o ônibus caiu de ponta, batendo primeiro o para-brisa da frente. O mergulho foi devagar e continuo. Na frente um monte de gente se esmagava, caindo uns sobre outros. Alguns se seguravam penduradas nos bancos. Eu fiquei apoiado no banco da frente enquanto via o nível da água passar pela janela pelo lado de fora. Dentro de minutos a água estaria entrando. Consequentemente a escuridão também viria na medida que o veículo afundava. Daí seria impossível sair, nada enxergando. Eu sabia que se quebrasse o vidro da janela a água de fora entraria com uma pressão tal que me levaria junto e perderia totalmente a noção do meu posicionamento. Teria que esperar o veiculo se encher totalmente para sair. O enorme caixão desceu até um ponto e depois com a pressão do ar de dentro, começou a voltar para cima em angulo para frente, ficando por alguns momentos, flutuando com as rodas para cima. Depois que a água tomasse conta de todos os espaços vazios, iria para o fundo definitivamente, se transformando em uma enorme esquife. Eu bem ciente da posição, quando a água já alcançava minhas narinas, encolhi as pernas e apliquei um chute com os dois pés no vidro da janela. Ainda ouvi um barulho surdo e impulsionei com as mãos apoiadas no banco, meu corpo para fora. Segurando a respiração e com os olhos bem abertos deixei o corpo sem movimento para sentir qual era o lado de cima. Tão logo percebi, comecei a nadar rumo à superfície. Uma mão agarrou o meu tornozelo. Eu num ato de altruísmo puxei a perna devagar para retirá-lo de dentro também. Já estava necessitando respirar. Meus pulmões queimavam como brasa. Continuei subindo e levando comigo a pessoa que me agarrava. No desespero, ela começou a me escalar segurando com mãos desesperadas minhas calças, depois meus braços, tirando totalmente os meus movimentos, dificultando a minha subida. Eu não sabia o quanto tinha de água sobre a minha cabeça. Poderia ser cinco ou dez metros de caminho até o ar da vida, lá em cima. Enroscado ali com o outro, engoli a primeira porção de água. Minha vista já não via mais nada a certa distância. A água se tornara lamacenta. Segurei-me até o extremo limite, sabendo que se engolisse mais água, seria o fim de meus dias sobre a face da terra. Passaram-me pela mente todas as mulheres que tivera conhecido. Beatriz continuava linda e charmosa. Elisa também estava muito bonita e sorria para mim. Joice apareceu em seguida com seus exuberantes vinte anos. Nunca a vi tão jovem. Depois vi a loira que morava no campo, tentando me alcançar, com se algo tentasse me levar para longe dela. Somente Isis não apareceu. Apareceu também o Aristides com um sorriso malévolo no rosto, como se dissesse: ----Você já era, subordinado.---- Senti que a morte se aproximava. O individuo continuava se debatendo agarrado ao meu braço, com mãos de aço, impedindo a minha subida. No ultimo momento que eu abri a boca para deixar meus pulmões inundarem totalmente, vendo que a luta era inglória e já com uma canseira mortal tomando conta do meu corpo, uma mão tampou-a e em seguida, recebi um beijo carregado de oxigênio. O ar entrou suave e refrescante como uma brisa de vida. Ao mesmo tempo outra mão segurava minha camisa e me levava para cima rapidamente. O que me agarrava o braço parou de se debater, afrouxou as mãos, mas parece que continuava enroscado. Imaginei ver também um vulto negro , que girava com bastante agilidade em torno da gente, distante uns cinco metros, semelhante a um urubu aquático gigante, esperando a vítima morrer para se banquetear.

Literatura- 26. O Tálamo...

                                                                               26
Embora um pouco amofinados com a situação, Eliza me convenceu que nada havia perdido e embora não fosse o que esperávamos, ainda tínhamos em mãos algo valioso.
----Não da para adquirir nada respeitável. ----Redargui. ----Talvez uma casinha pequena em um bairro pobre.
----E se a gente rastreasse os anos atrás, quem sabe encontraríamos o resto? ----Perguntou ela.
----É um negócio muito complicado... Veja bem. ----Eu disse, pegando uma caneta e fazendo uma conta. ---São 21900 dias. O trabalho seria tão grande que não valeria à pena. Por outro lado, as pessoas sempre estão em movimento. Um minuto depois, pode alguém ter pegado e deslocado os objetos do lugar, para outra parte da casa. Daí já não encontraria de forma alguma. Por fim decidimos que o bom seria ficarmos quietos e administrar o ouro da melhor forma possível. Joice voltou na data combinada e nos abraçou efusivamente no re- encontro.
Sua mãe estava passando melhor e ela estava feliz em poder voltar para a rotina de sua vida. Vendo a amizade das moças, deixei de lado um pouco minhas eternas desconfianças e entrei na graça das duas. Certo dia, estando os três confabulando na sala da Joice, ela nos contou algo que deixou eu e Eliza, intrigados. Contou ela que sempre morou naquele lugar. Eliza jogou disfarçadamente um olhar para o meu lado, como se advertindo para o que viesse.
----Desde criança?----Perguntei interessado.
----Sim... Até os vinte anos, tinha minha mãe comigo. Depois ela teve que se mudar para outra cidade, para atender meu irmão que lá estudava. Acabou se envolvendo com um velho e ficando por lá.

----E você, ficou bem aqui sozinha?----Perguntou Eliza.
----Sim, eu sempre fui muito independente... Agora vou contar uma coisa... Que somente a vocês eu conto... A minha vida deu uma guinada para melhor, quando encontrei, em uma madrugada ao chegar de uma festa, uma barra de ouro bem ali perto da parede do depósito. Esperei um tempo para ver se alguém reclamava e depois reformei tudo e montei esta loja. Antes no lugar eu tinha um salão de beleza, que não ia para frente e nem para traz. ----Eliza não conseguia conter a expressão estupefata e me olhava com insistência.
----Você achou somente uma barra?----Perguntou Eliza, pegando no braço da outra, demonstrando grande curiosidade.
----Somente uma. ----Por quê?
----É que falando de ouro, minha filha... Quanto mais, melhor.
----É verdade. ---- Acudi, tentando não levar o assunto para a desconfiança. À noite em nossas conversas de cama, tentávamos desvendar o mistério do ouro perdido. Tinha uma teoria que, as jóias e a primeira barra, teriam caído tempos mais remotos e a ultima barra caída, foi ao chegarmos, que no tempo deu uma dezena de anos.

Eliza tinha vontade de contar a amiga todo o segredo, mas eu a desanimava, dizendo que duas cabeças guardam mal um segredo e três cabeças mal guardam segredos. Poderíamos ser expostos de uma forma ruim. O bom seria deixar como estava e tocar a vida como ela se apresentava. A moça concordou.

Literatura- Se adaptando a vida

Porangaba antigamente, tinha o seu cinema em prédio próprio
Se adaptando a vida


Porangaba sempre foi mais cultural que Guareí. Embora as duas pequenas cidades fossem praticamente do mesmo tamanho,as manifestações culturais tinham mais aceitação pelo povo e políticos da primeira. Prova disso, presenciei quando ainda criança e era membro do grupo de escoteiros. Esse grupo foi formado pelo Sr Laelson, um esforçado cidadão em busca do progresso. O grupo de escoteiros durou pouco, certamente pela falta de verbas e incentivo. Fomos de Guareí até Porangaba passando por Tatuí onde desfilamos ao redor da praça da matriz. Era um caminhão cheio de criançada, toda fardada,onde uma parte empunhava cornetas estridentes e bumbos retumbantes. Eu já era um dos corneteiros,depois de ficar com a boca inchada para aprender a soprar o instrumento. Estava todo entusiasmado pelo passeio. Devido a falta de estradas boas, fizemos um percurso semelhante a uma ferradura para chegar ao destino. Guareí em linha reta fica a poucos 25 km de Porangaba. Depois de Tatuí, passamos por Cesário Lange , sempre por estrada de terra, não se incomodando com as nuvens de poeira vermelha que tudo cobria e entrava pelas nossas bocas, deixando um gosto esquisito de barro. Naquela época quase não tinha estradas com asfalto. Chegamos em Porangaba e fomos recepcionados por um guareiano, chamado Carlinhos,filho do Luizinho sapateiro. Ele residia por lá, em uma bela chácara próxima a cidade. Teve um churrasco e muita taubaina para a criançada. Logo depois do almoço, fomos levados ao centro da cidade para conhecer melhor o lugar. Fiquei admirado ao constatar que eles tinham um prédio próprio de cinema. Em Guareí o cinema era adaptado em uma casa para comercio, emendado com uma garagem de ônibus, para aumentar a plateia. Era hora da matiné de domingo e deixaram os visitantes entrarem de graça. Passava um filme do gênero faroeste, a cores. Me lembro que tinha um diálogo de vaqueiros a noite ,ao redor de uma fogueira. Como o filme estava pela metade e logo fomos chamados para sair, nunca consegui identificar qual era o filme. Os anos se passaram as coisas mudaram, crescemos e fomos embora para outros lugares. Quando morava em São Paulo nos anos sessenta, a gente se encontrava nas imediações da avenida Ipiranga, onde se reunia uma turminha de tatuianos. Era sempre nos fins de semana, para conversar , tomar chope e olhar as moças bonitas dos bairros, que passavam por ali. Tinha um rapaz de Porangaba, que chamava a atenção de todos pela disposição da conversa, pelo sotaque carregado do interior e principalmente pelas frases acaipiradas. Era um sujeito simpático e todos gostavam dele, pela sua alegria contagiante. Ele sempre falava de um tio que morava em Porangaba e era um figura pitoresca do lugar. Toda cidade pequena tem estereótipos que se tornam conhecidos do povo. Se pormos os alcoólatras juntos, formamos um pequeno grupo. Em Guareí tinha o João Musa, cuja risada ecoava pelos becos mais distantes como o ribombar de uma trovoada. Muitos tinham cuidado, pois ele carregava sempre um chicote e no calor da euforia, dava chicotada nos mais próximos. Tudo por brincadeira. Bêbado também fica famoso. Tinha o João Pijuita que brigava se alguém imitasse gato, insinuando que ele estava miando de bêbado. Tinha também o Berto,que mexia pelo centro, sempre alcoolizado. O pessoal dos sítios tinham dó e pagavam bebida para eles, causando mais mal do que bem. Voltando ao tio de nosso amigo de Porangaba,lembro que ele gostava de contar as façanhas do tio. Sempre que ia por lá visitar a família vinha com novidades. Segundo ele, seu tio era do tipo que, o mundo estava onde ele vivia. Super bairrista, não existia outro lugar melhor do que Porangaba. Certa vez o sobrinho estava para pegar o ônibus para Tatuí. Naquele tempo, ônibus para São Paulo mais próximo era em Tatuí somente. Foi se despedir do tio e este lhe falou: ---Por que já vai?
---Preciso ir tio, tenho que trabalhar na segunda feira.
---AAAhhh... largue mão...fique aqui, que vai passar um firmaço no cinema. Primeiro aquí, depois no Estado de são Paulo.
---Que firme será ? ---perguntou o sobrinho.
---É o "Arcideo, grande guerrero paraguaio"---Seria o filme "El Cid".

Pra ele,o nome dos atores de cinema da época eram " Reques Errisso", "Rodolfo Escote", "Tirando Porva", "Errou Fim" e uma lista infindável que para muitos tinha que ser traduzida para ser entendida. Muitas eram as histórias contadas pelo seu sobrinho, o que fazia a turma rir como nunca. O tempo continuou passando a turminha foi se dispersando e perdendo o contato uns com os outros. Hoje temos somente na lembrança, passagens pitorescas e fatos que nunca esquecemos. E elas se tornam histórias de velhos.

Literatura - 16. O tálamo...

                                                                    16
Naquelas alturas eu já estava bem pratico com o controle da cama. Tinha descoberto como ir para anos determinados, sem diferença no tempo. Mesmo assim um dia resolvi testar o tálamo e ficar certo de onde mandar alguém para uma viagem turística emocionante. Queria mandar a cama para aquele tempo das feras. Para isso, coloquei um pedaço de carne bovina, sobre ela. Se voltasse sem a carne, certamente seria o lugar certo. Mandei-a para aquele determinado ano. A experiência me dava calor, mesmo com o tempo frio. Esperei um pouco, e acionei o controle para trazê-la de volta. O susto foi tão grande que quase cai da cadeira e mal deu tempo de sair do quarto e fechar atrás de mim a porta. Estava em cima da cama um enorme leopardo, que ao me ver arreganhou os dentes emitindo um grunhido grave e rouco. Com a adrenalina correndo rapidamente em minhas veias, ali estava eu encostado na porta, com medo da fera forçar pelo outro lado. Pelo tamanho deveria ter uma força incrível. Acalmei-me um pouco e com muita atenção manuseei o controle para mandar de volta a cama e o enorme felino, enquanto supostamente ele estava em cima do móvel. Esperei meia hora, com o ouvido na porta, para ter certeza que tinha ido. Poderia ter saído da cama e nessas alturas estar solto no pequeno quarto. Devagar, abri a porta e não o vi mais. Fechei-a novamente, encostando um móvel do lado da sala. Fui pelo quintal e por uma fresta na janela do quarto, fiquei observando o local. Uma brisa fria gelava meus braços, mas ali estaria mais seguro. Trouxe a cama de volta, desta vez somente ela. Quando voltei para o quarto, deparei com os panos da cama, sujos e fedendo a urina felina. Senti um enorme alivio de ter resolvido a situação. Daí comecei a ver a grande besteira que tinha feito. Tenho por costume, antes de tomar atitudes, estudar muito bem os prós e os contras. Desta vez simplesmente coloquei a ação no lugar da moderação. Quase fui vitima de um desastre. Fico a imaginar o pessoal me encontrando todo estraçalhado por um felino que ninguém sabia de onde teria vindo e depois escapado pela cidade, atacando as pessoas. Daria uma noticia e tanto para a imprensa.
                                              --------------
Passados alguns dias, Eliza ligou para o homem. Marcaram um encontro. Foram a um restaurante e quando chegou a hora de levar a moça para casa, ela o guiou até uma esquina próxima de minha casa.
Eu já estava preparado e também ela, para levar a bom termo o plano. Era uma distância de cem metros e ela tentou mostrar a casa onde morava.
----Esta vendo aquela casinha em frente ao segundo poste?
----Mais ou menos. ----disse ele procurando localizar um ponto na claridade mortiça da rua.
----Então... É lá que eu moro. ----Completou ela forçando animosidade.
----E porque paramos aqui?
----Porque eu não gosto que meus vizinhos fiquem de olho. ----Confirmou.
----Entendi... Desculpe a pergunta boba.
Ele com jeito, a envolveu suavemente. Era a primeira vez que a tocava. Era ali que começava a parte mais complicada para ela. Era ali que a atuação se tornava mais complexa, exigindo da atriz o máximo do talento. Deixou-o avançar até certo ponto e totalmente controlada, acionou o freio.
Não poderia deixar a coisa rolar tão facilmente. Não sentia nada de bom por aquele sujeito. À vontade de empurrá-lo, ou bater sua cabeça no vidro, era quase maior do que o anseio de levar a bom termo, a tarefa que a atribuíram. Daí se lembrou que tinha que ser uma atriz... Era para isso que PG a incumbira. Afastou-o com muito jeito e disse:- ---Tenho que entrar... Na próxima, o convido para chegar. ---Essa frase o deixou mais animado e facilitou sua saída do carro.

Primeiro voo



















Em 1963 eu e mais um colega de trabalho fizemos uma viagem até
Londrina , no Paraná. Foi a primeira vez que viajei de avião. Ainda
era daqueles bimotores a hélice e a gente via correr filetes de óleo
pela superfície do enorme motor, enquanto voava. A paisagem abaixo,
ficava meio obstruída pela asa da aeronave. Foi uma emoção e tanto,
quanto da primeira vez quando criança, que andei de ônibus.

Londrina naquele tempo ainda era uma cidade média, não tinha
muitos prédios altos e era espalhada e bem distribuída. Largas
avenidas cortavam a cidade de uma ponta a outra.
Entrando no Google hearth estes dias, vi que a cidade se tornou
enorme, bonita e pelo que parece pelas fotos , bem cuidada. É muito
difícil ser grande e bonita.

A periferia de São Paulo por exemplo é horrível e deprimente.
Campinas, idem.Parece que nossa estadia por lá foi meio rápida,
só o tempo de fazer um levantamento para instalação de ar
condicionado e logo voltamos.

Para termos noção de uma cidade, temos que ficar alguns dias e mexer
bastante . Fico pensando que, no Brasil, existem certas cidades bonitas
que parecem que não fazem parte do país. São independentes e
lideram uma populosa região. Independentes no modo de ver
superficialmente e com alguma fantasia, porque na verdade elas
sentem os mesmos problemas administrativos que todas as cidades
sentem .

Mas vale a pena sonhar que é um lugar livre de corrupção e desvinculada
das leis do planalto. Na foto , estou eu com meus vinte anos e nada de
concreto na cabeça.Ficou na memória, ficou nas lembranças. É tempo que
vem, é tempo que passa. Grande abraço aos amigos Londrinenses
.Faço
votos que sempre seja uma Londres ensolarada e sem smog.
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Uma viagem

CATALÃO X TATUÍ















Nêstes dias, tive o previlegio de conhecer o sul de Goiás.Mais precisamente,Catalão.Cidade de gente hospitaleira e carinhosa. Não posso deixar de fazer um paralelo dela com a cidade em que moro. Lá os bairros são arejados, com ruas largas e calçadas enormes.

Aqui temos ruas estreitas e tortas,com calçadas parecendo tiras de até menos de um metro de largura, o que nos obriga a andar em fila indiana.Lá muitas ruas estão asfaltadas porém sem rede de esgôtos o que obriga os moradores a fazerem fossas.Aqui parece que não há êsse problema.

O que mais gostei da cidade, foi o conjunto de lagos e reprêsas dentro da cidade.Muito bem feito e bem conservado, tem até circundando um deles, uma pista para caminhadas.Aqui,sem termos êsse luxo embelezador, o povo adepto de caminhadas anda por avenidas com calçadas estreitas e disputam espaço com veículos nos cruzamentos.

Coisa tão simples e barato de se fazer e passa despercebido dos políticos de plantão.Uma coisa por lá se destaca daqui e podemos dizer que está mais para o lado perverso do que do lado benéfico.São os carros de propaganda política com os sons nas alturas, que passam a cada cinco minutos nas ruas.Começa o alarido as oito em ponto e vai a té as dezoito horas.Parece que a política por lá é acirrada e contagiosa.

Nisso pelo menos por enquanto,temos uma bela calmaria por aquí e podemos dizer que está dentro dos limites da normalidade.Agora em uma coisa tirei a conclusão precisa e perfeita.

Outra coisa que notei por la´foi o vento quase constante, amenizando o calor principalmente a noite. Se as autoridades descobrissem a força do vento, certamente que em Catalão se resolveria problemas de energia e a paisagem mudaria pelos cata-ventos. O vento está lá... é só usá-lo.

Lá também como aqui, tem os mesmos idiotas que andam de carro pelas ruas com o som na altura dos cem decibéis, geralmente tocando música brega, como se fosse a mais bonita do mundo e que todo mundo precisa ouvir, indiferente do horário.Haja ouvido para aguentar.

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Carta.

CARTA DE UM CABRA DA PESTE
A triste realidade nacional!

Sr. Presidente da Agência Espacial Brasileira.

Sou nordestino, meu nome é João José da Silva, mais conhecido por
Janjão. Não sei ler nem escrever e estou abusando da boa vontade da
professora da minha cidade para fazer esta carta.Quero me candidatar
para ser o segundo astronauta brasileiro.

Vi pela televisão numa cidade
vizinha, o tenente Pontes viajar e ficar naquele ônibus apertado vagando no espaço. Soube também que é preciso muito treinamento pra fazer essa
viagem e realizar algumas tarefas.

Viajar de ônibus é até um luxo pra mim. Aqui no sertão, viajar é a pé, e

quando muito em lombo de jumento. Outra coisa, plantar feijão sem a tal
de gravidade pra mim é moleza. Sou acostumado a plantar feijão até sem
água.

Todo ano acontece isso. Ua coisa eu garanto, fico todo o tempo

olhando pra ver se o danado germina e vinga. Posso até contar o tempo -
as horas, os minutos e os segundos.

A comida, me disseram que é especial, levinha... Nada de muita sustança
como buchada de bode, feijoada ou sarapatel. Nessa área sou craque. Se
for preciso, posso passar até toda a missão sem comer. Nisso tenho muita
experiência.

E para falar com os gringos, não preciso aprender a língua deles. Vi
muitas vezes o nosso astronauta apontando para a bandeira do Brasil e
dizer que tudo estava positivo com um pequeno gesto. Logo, me
Comunicarei somente com gestos e sem falar, acredito que a passagem fica
mais em conta.

Soube que o nosso governo pagou 60 milhões de dólares para os russos

aceitarem o nosso tenente na grande viagem.

A minha proposta é que sem
comer, sem beber e sem falar poderemos ter um grande abatimento nessa passagem e aí o troco pode ser enviado aqui para a minha cidadezinha e
com ele pagar pra cavar um poço pra gente ter água, construir uma
pequena barragem, comprar e distribuir sementes pra todo mundo plantar
no próximo inverno.

Poderemos ainda tapar os buracos da estrada pela

qual só está passando agora jumento e carro de boi. Poderemos construir
um posto e contratar um médico para atender tanta gente doente.

E aqui pra nós, poderemos pagar o salário da professora que está fazendo
esta carta e há três meses sem receber. Isto tudo que estou dizendo
Foram as promessas que o último político que passou por aqui fez antes
das últimas eleições.

Olha, vocês podem até pensar que é brincadeira, mas falo isso de
coração. Estou pronto pra tal viagem. Tem mais: a minha experiência é
grande para o viver difícil. Vi o treinamento do tenente na TV.

Posso correr dias e dias atrás de bode na caatinga fechada, com uma
temperatura beirando os quarenta graus.
Bebo qualquer tipo de água. Pode
ser barrenta, de raíz de pau ou de miolo de palma. O tenente começou a trabalhar aos 14 anos, eu desde os cinco labuto.

Sou, antes de tudo, um
forte e quem disse isso, conforme a professora, foi um cara aí do sul,
um tal de Ocrides da Cunha que escreveu sobre os sertões, isso há muito tempo.

Ele estava com a razão. Aqui sofremos muito, mas continuamos

fortes. Por fim, já que o tenente Pontes levou para o espaço o chapéu de Santos
Dumont, quero levar o chapéu de Lampião que para mim foi o maior macho
que apareceu por estas bandas.

Atenciosamente,
João José da Silva (Janjão)

Créditos para O ANACOLUTO.

A viagem. Parte 4

Fui deitar cedo, me prevenindo, mesmo sendo bom em caminhadas. Gente da roça anda muito. O quartinho que a dona disponibilizou era bem limpinho, e muito simples. Uma cama de solteiro estreita com colchão de capim, uma cadeira que servia mais para se pendurar à roupa. De moveis era só. Uma janela pequena de tábuas aparelhadas no machado, que não ousei abrir temendo uma invasão de pernilongos. Felizmente a noite estava fresca. Ao lado da janela um calendário amarelado.Vi que era daquele ano, localizei o mês que estava e em desenhos minúsculos em b dos números do dia, vi as fases da lua. Na próxima noite teríamos lua cheia. Do lado de fora vinha o som dos grilos com suas canções invariáveis homenageando a donzela escuridão. Deitei-me de costas e comecei a pensar na vida, na viagem até aquele ponto, com as cenas do dia ainda vivas em minha cabeça. Passei por um sono leve e logo atravessei umas três horas bem dormidas.
Tinha pedido que me acordassem no clarear do dia. A mulher peituda me advertiu: ----Nós damos o café da manha, mas somente a partir das sete horas. -----Não tem problema. ----Disse eu.
----- Me viro por aí.
----Por que vai levantar tão cedo?----Ela perguntou com um quase imperceptível sorriso malicioso.
----É que amanha vou ter uma grade jornada a realizar. E vai me tomar o dia todo. Então tenho que sair bem cedo.
----Puxa, vai para longe então. ----Fazendo um trejeito com os olhos.
----É... Vou visitar minha irmã... Faz três anos que não há vejo.
----Então é justo. ----Acrescentou ela. ----Tem que ir mesmo.
Por volta de uma hora da madrugada, acordei com um leve arranhado na porta. Pensei ser algum gato, mas não tinha visto animal algum quando cheguei. As frestas da janela acusavam a claridade opaca do lado de fora. Era a lua que já estava alta. Acendi a vela em cima da cadeira e vi no meu “Roskoff” que era uma e cinco. Passado um minuto o arranhado voltou a se repetir. Já bem acordado, levantei e fui ate a porta conferir se era um gato.

A viagem. Parte 3

A VIAGEM
Quando chegar à altura onde a estrada passa ao lado de um rio, preste atenção que na próxima curva tem uma porteira onde está escrito: “GOROCAIA” Passa por ela, anda mais um pouco e estará lá. Eu conheço esse sitio, e é bem longe. O Senhor vai a cavalo?----Perguntou com interesse.

----Acho que vou a pé. ---Com essa resposta parece que despertei a platéia e alguns fizeram uma cara disfarçada de riso. O velho completou:
----Se pretende ir a pé, ande durante o dia. A noite é muito perigosa. E vai andar o dia todo para chegar lá.

----É o que pretendo. ----Respondi, agradeci e fui procurar um lugar para dormir. Sai dali matutando em alugar um cavalo para a viagem, mas não tinha dinheiro suficiente para tal evento. E também não queria incomodar minha irmã com dinheiro, pedindo emprestado para a volta.
Próximo dali tinha alguns meninos brincando com bolas de gude na terra amarela e batida pelos pés descalços das crianças. Perguntei a eles onde teria uma pousada. Responderam-me que só tinha uma, a pensão da Lica.

Ficava em uma rua transversal, nas proximidades. Cheguei até lá e vi que era uma casa normal, bem simples, o que me deixou feliz por estar a minha altura. O preço também deveria ser acessível ao meu bolso.

Entrei e vi uma garotinha brincando com uma boneca de pano sobre um sofá velho e surrado. Quando ela me viu, saiu correndo, chamando alguém. Depois de alguns minutos apareceu uma mulher de quarenta anos, forte e decisiva no trato, como toda dona de pensão. Imaginei que era daquele tipo que mandava no marido.

Não era feia, e até tinha alguns atrativos. Cabelos ainda negros e lisos como capim gordura. Tinha também seios volumosos que não deixavam de chamar a atenção, até de mim, caipira simples e inocente. No andar transmitia um balanço que mais parecia um convite às coisas pecaminosas. No mais a minha maior preocupação era a jornada do dia seguinte. Muitos quilômetros a serem percorridos. Fui me deitar cedo.