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Literatura-55.O Tálamo...

   Direitos reservados                                              55
Na próxima noite, ela saiu por volta das vinte horas, depois de me deixar jantado e com os ferimentos cuidados. Não se esqueceu da arma perto de mim, conferida e municiada. Ainda ouvi o trek da fechadura travando a porta lá em baixo. Senti momentaneamente um vazio dentro do peito. Estava ali inerte,sozinho e sem nada poder fazer, enquanto não sarasse as feridas. A ansiedade vinha em forma de ondas e me deixava com a respiração rápida,suando frio, e um aperto incomum no estômago, só em pensar por quais caminhos sombrios ela iria percorrer. Mas em seguida lembrava, que nada iria acontecer de mal para a garota. Ela sabia se defender como ninguém. Liguei a TV para me distrair, mas a mediocridade dos programas me deram mais tédio. Comecei a conjecturar sobre esse mal que nos assola. Parecem um bando de imbecis, trabalhando para uma multidão de idiotas. Senti a presença de gente. Devagar peguei a arma e a fiquei segurando.Poderia ser que minha hora chegasse,considerando a situação que me encontrava. O sujeito deveria ser bom, pois nada escutei. Mas desta vez(pensei comigo) não vou ser uma vítima.No mínimo, vamos os dois.Lembrei dos filmes de faroeste, onde os dois inimigos ficam frente a frente no meio da rua e um atira em outro simultaneamente. Em seguida uma brisa suave e perfumada invadiu a sala. Sentindo o perfume, imediatamente lembrei da Celina. Apareceu a minha frente, mais bela que nunca, com as mãos para cima,um lindo sorriso nos lábios e disse:----Não atire por favor...sou eu, sua amiga.--Puxa, mas que prazer .Que bom que lembrou-se de vir me ver. Pena que um pouco tarde, talvez.----Disse eu, forçando um pouco a amizade.--Não seja ingrato PG. Você está vivo e isso é o que interessa. E por outro lado, você não sabe a razão de minha visita.--Se veio me convidar para fugir, fique sabendo que estou prontinho da silva, embora meio alquebrado. Com você vou para qualquer parte do universo.--É mesmo ?----Disse ela esboçando um sorriso de satisfação.--- E a sua robô,como fica.--Bom .. podemos levá-la junto.--Acho que não dará certo.----Disse voltando a sorrir.--Cadê o meu beijo?Você chegou e achei que estava com saudades. Esperava mais entusiasmo no re-encontro.--Você é mesmo impossível PG.----Dizendo isso se aproximou e me beijou no rosto. A proximidade dela me deixava as portas do paraíso. Seu perfume era algo inexplicável em palavras. Era como entrar no mundo dos sonhos, mesmo estando acordado e uma tranquilidade e paz invadia a alma, tornando todos os problemas em coisinhas insignificantes.--No rosto? Como irmãzinha?Esperava algo mais consistente.----Repliquei, apostando na minha situação de enfermo. Ela com seriedade, sem protestar, segurou minha cabeça e me beijou na boca. Aquilo para mim, foram os segundos mais longos de minha vida. Tinha medo de desmaiar mediante o turbilhão de emoções que entrou em minha cabeça. O gosto refrescante de menta tomou conta de minha boca novamente e desceu até o estomago , parecendo rejuvenescer todo meu corpo e tirando todas as minha dores. Quando ela se afastou um pouco, fiquei paralisado de êxtase.--Você esta´bem PG?----Perguntou ela preocupada. Ainda segurando seu braço, para não deixa-la se afastar, eu disse:---Puxa, sumiram até as dores. Deve ser o seu beijo sabor de hortelã.----Ela riu e devagar foi se livrando de minhas mãos, que já estavam começando a explorar com malícia. Nisso, um pequeno barulho na janela que dava para a rua. Nunca imaginei uma pessoa tentar entrar por ali. A altura era de no mínimo cinco metros do chão. Mas lembrei que tinha uma pequena saliência, onde daria para se firmar os pés. Então, não seria impossível para uma pessoa com prática em escalar, tentar entrar no apartamento por ali. Peguei a arma novamente. A moça calmamente pôs o dedo a frente da boca, aconselhando silêncio. Ela me ajudou a levantar e a ficar ao lado da porta , onde o indivíduo teria que passar obrigatoriamente. Eu de um lado e ela de outro. Teríamos que pegá-lo de surpresa. O sujeito entrou devagar aparecendo primeiro a arma que levava, apontada para a frente a altura do peito. Pelo visto a sequência era atirar em mim que previsivelmente estaria no sofá. Ao passar a porta acertei-lhe uma cacetada na nuca, com a coronha da minha pistola. O grandalhão desmoronou como um grande saco de batatas, já no chão, fez alguns movimentos estrebuchantes e sossegou inerte. Estendido no carpete parecia maior ainda. Cheguei perto e mesmo com uma tremenda dor na perna pelo movimento rápido,chutei a arma de sua mão para longe. A moça correu e a apanhou rapidamente. Em seguida apontei a minha, para a cabeça do individuo. Celina vendo aquilo,gritou um não, tentando me impedir de atirar.--Tem outra ideia melhor?----Perguntei a ela, ciente que não poderíamos dar chance para o bandido. Nessas horas as decisões tem que serem rápidas se tiver amor a vida.--Deixa eu dar uma olhada nele.----Disse ela se abaixando para examinar o brutamontes.----Cuidado!!----Adverti.

Ela calmamente colocou a mão na garganta do sujeito e sentenciou.:--Ele está morto. Você deve ter quebrado a nuca, o que ocasionou morte por asfixia.--Antes ele do que eu.----Respondi meio irritado pela situação que vinha passando nos últimos dias. Não sabia a razão porque queriam me matar e de não desistirem mesmo perdendo gente.Celina tentou me acalmar, me pondo sentado novamente e ficando ao meu lado. Isso para mim foi como um bálsamo vivificante.--Bom, desta vez não foi preciso minha interferência para salvá-lo.--Mas você me ajudou em muito. Se não estivesse aqui não escaparia dessa.----Ela pegou a minha mão e senti novamente aquela sensação de bem estar que poderia vir de seu perfume raro ou de seu contato aconchegante. Novo barulho de fechadura, agora na porta de baixo, da entrada do apartamento. Era Ísis que chegava. Lá de baixo ela falou em bom tom:---- Sou euuu!!!--Olha...--- Falou Celina.----Ela não pode me ver. Por isso não fique falando comigo, que vais passar por idiota.----Assenti com a cabeça, sentindo um alívio .De certa forma não queria que Ísis a conhecesse mesmo. A frente dela com a cabeça baixada, evitando olhares, vinha a Valdívia escoltada pela minha mulher.--Senta ali----Disse a escolta com rigidez. A moça obedeceu prontamente.--O que é isso? Mais um ?----Falou Ísis ao ver o corpo estendido.-- Pois é … ainda bem que tive sorte e a ajuda do meu anjo da guarda.----Olhei para Celina e ela estava rindo.

Literatura-46.O tálamo...

                                                                                  46
Conseguimos fazer umas manobras e não deixar Valdívia saber do ocorrido. Nessas coisas, quanto menos pessoas envolvidas, melhor. Em seguida dispensamos a empregada, alegando que o serviço já estava quase terminado. Se ela resolvesse entrar no banheiro teríamos dificuldades. Dissemos que aproveitasse o tempo para ir arrumando as coisas em casa. Esperamos chegar à noite para resolvermos o problema com os defuntos. Arranjamos dois sacos plásticos grandes e ensacamos os ex-bandidos. Na semi-escuridão, encostamos o carro atrás do caminhão que permanecia estacionado em frente à loja. Em parte o baú escondia os movimentos de um lado da rua. Se alguém passasse veria que estávamos fazendo horas extras, tirando as últimas coisas do cômodo. Entre essas coisas dois volumes foram diretos para o porta-malas do carro. Minha parceira me deixava cada vez mais surpreendido com suas atitudes certas e precisas. Eu já tinha deixado ela dominar e controlar a situação. Ela agia, eu observava. Fechamos o caminhão e a loja, pegamos o carro e com Ísis no volante seguimos para um lugar ermo. Quando saímos da cidade e entramos em uma estradinha de terra, ela apagou as luzes do carro. A escuridão era total e percebi que ela via cada buraco que aparecia a frente, desviando dele. Depois de uma hora rodando por campos, passando pela frente de sítios e chácaras, beirando rios e cortando plantações de milho, ela parou a beira de um matagal. O carro ficou propositalmente entre o mato e uma fileira de arbustos enormes que o escondiam de olhares curiosos, se alguém passasse na estradinha de terra ao lado. Em silencio desceu do carro e eu a acompanhei. Olhei para o céu e vi a diferença.
 Parecia que ali o número de estrelas era muito maior que na cidade. Não sei onde ela tinha providenciado uma picareta, uma pá e mais dois pares de luvas de borracha. Com a picareta ela foi abrindo rapidamente uma cova, na grama úmida pelo orvalho da noite, na entrada do matagal. Tentei ajudá-la tirando a terra com a pá, mas ela era muito mais rápida que eu, o que me deixava com falta de ar pelo exercício. Em pouco tempo tínhamos um belo buraco de mais de um metro e meio de profundidade. Jogamos os embrulhos dentro e começamos o processo de tampá-lo. De repente ela pegou meu braço para chamar a atenção e com o dedo a frente da boca fez entender que vinha alguém. Puxando-me para traz nos escondemos agachados entre os ramos cheirosos de uma planta. Dali cinco minutos vimos passar um vulto a cavalo. O toque surdo dos cascos na terra ouvia-se de longe, somente atrapalhado pelo tiritar dos grilos. Depois que ela calculou que o individuo estaria bem longe, continuamos com o serviço. Depois de cheio, ela ainda teve o cuidado de replantar a grama original que tinha deixado de lado. Foi até dentro do mato e arrastou um galho seco, colocando-o sobre o local do enterro. Era por volta de vinte horas e no horizonte começava a aparecer o disco prateado da lua cheia. A paisagem foi se transformando em variados tons de cinza. As pedras maiores a beira do caminho refletiam a luz leitosa, podendo ser vistas de longe. Ainda bem que terminamos o serviço antes da claridade. Como se nada tivesse acontecido, ela calmamente dirigindo de volta, olhou para a lua e disse:--Sabia PG, que na minha terra tem duas luas?--Não tive chance de vê-las. Mas parece que a noite lá é bem mais curta que aqui. Reparei nisso quando estava cercado pelos lobos brancos. Os escorpiões são enormes também.--Você viu os lobos? Dizem que só andam a noite. Não podem suportar a claridade do dia, e passam todo ele em cavernas.--É verdade. Quando veio a aurora eles se mandaram.--Você viu escorpiões também?--Sim... Amarelos, maiores que minha mão aberta. Mas meio lentos.--Dizem que são mais perigosos que os lobos. O veneno de um mata uma pessoa em vinte minutos.--Também deu para perceber. Chutei o bicho em cima da matilha e parece que um deles foi picado. Vi-o morto de manhã. Chegamos ao hotelzinho quando já era quase dez da noite. Outro dia pegaríamos o caminhão e iríamos embora sem destino. Tinha que ser assim para ninguém saber. Outros encargos burocráticos seriam resolvidos outro dia.

Literatura-33.O tálamo...

                                                                 33

Se a noite fosse fria, poderia fazer uma pequena fogueira. Ali sentei com meus pensamentos e esperei a noite chegar. A luz amarelada do sol ainda clareava as partes mais altas dos escombros, quando eles começaram a chegar. Eram grandes, magros e transmitiam no olhar somente maldade. Tinham sentido talvez meu cheiro e vieram em minha direção. Para mim aquilo era uma raça de lobos dos maiores que existiam e todos da cor branca. Alguns tentavam subir a escada sem sucesso. Parecia que a fome os comandava na busca pela caça. E a caça desta vez era eu. Comecei a verificar toda a área em cima da plataforma, para descobrir alguma falha por onde pudessem ter acesso até onde estava. Felizmente não tinha. Meu estomago começava a incomodar pelo tempo passado sem comer. Tinha algumas bolachas na mochila e comi-as devagar com um pouco de água. Fiz a fogueira de tamanho pequeno, considerando a quantidade de material combustível que tinha na pequena área. Dizem que fogo mantém animais a distância e também atrai insetos, entre eles, aracnídeos. Os insetos confundem a luz e acham que é a do dia, caindo no fogo ou pousando nas proximidades. Os outros vem para a claridade para pegar os insetos. Me lembro que quando criança, ia até embaixo de postes de iluminação em noites de verão para ver aranhas. Não demorou muito e estava à minha frente um enorme escorpião. Era do tamanho de minha mão. Fiquei arrepiado e com um chute, joguei-o sobre a cachorrada lá em baixo. Não deu para ver detalhes, mas parece que o engoliram sem cerimônia depois de um ganido de dor. Devia ter picado um deles. Acuado em uma plataforma pequena, sem sequer poder relaxar um pouco sentado, evitando o perigo de ser picado por um bicho daqueles, uma irritação começou a tomar conta de mim. Prevendo que passaria a noite sem dormir, já cansado da situação,revoltado, estressado, resolvi reagir. 

Peguei uma lata de solvente e abrindo-a atirei no meio dos animais. Imediatamente joguei uma ripa com fogo e em seguida vi três focos de fogo se movimentado de um lado para outro, no desespero, com as chamas consumindo sua pelagem. Joguei mais uma lata, mas esta já atingiu somente o solo em chamas, dando uma explosão de luz, mostrando todo o cenário macabro. Os animais atingidos pelo combustível tornaram-se estranhos aos outros e com os pelos queimados, já meio mortos pelo fogo, foram atacados pelos demais em uma terrível cena de canibalismo. Quando o dia deu os primeiros sinais, a matilha em fila foi se retirando. Achei que seguindo o caminho do bom senso, viveria mais. Já com a segurança do dia,me deitei a sombra , usando a mochila de travesseiro. Ali começava minha noite de sono. Se dormisse algumas horas já seria o suficiente. Quando acordei, o sol já estava na posição das dez horas. Me senti melhor depois da dormida e com a mente mais limpa,comecei a planejar a saída daquele lugar. Esperei mais um pouco e observando ao redor, desci pela escada e rumei para o lado contrário da rota dos lobos. Entre as carcaças dos que foram devorados, jazia um inteiro, intocado. Devia ser o que o escorpião picou. Com a arma na mão e andando depressa, depois de meia hora de caminhada ofegante, saí dos escombros e entrei em um deserto. Mais uma hora, cheguei até um bloco de pedra onde parei para descansar.

Literatura -28. O tálamo...

                                                                             28
Começamos a fazer um novo planejamento para outro banco, talvez até em outra cidade. Levaríamos a cama até lá se fosse preciso. Eliza trabalhava com dedicação no projeto. Descobrimos um enorme banco em uma grande cidade, que prometia grande resultado. Até ali já sabíamos que em banco pequeno não tinha ouro. E se tivesse seria pouca coisa. Estávamos com o estudo quase completo, quando uma noite,Eliza me acordou agarrada em meu pescoço, dizendo que tinha ouvido um barulho. Fiquei esperto e de fato ouvi ruídos na cozinha. Levantei-me cautelosamente, supondo que ladrão sempre anda armado. Não queria levar um tiro de bobeira. Encostado a parede, medindo os passos, fui devagar até a cozinha. Nada encontrei de suspeito. Voltei para cama, supondo que fosse algum rato que entrou na casa, considerando que ratos fazem barulhos estranhos à noite. Na próxima noite tive um sonho estranho, daqueles que misturam ruídos reais com os devaneios. Acabei acordando e fiquei alguns minutos tenso, vivendo ainda o clima pesado e nebuloso. Resolvi levantar e ir até a cozinha tomar um pouco de água. O quartinho do fundo onde era usado para despensa e onde estava a cama, ficava no fim de um corredor, saindo da cozinha. No meio a penumbra do alvorecer, se destacava uma luz vinda dele, filtrada por baixo da porta. Fui ate lá pelo escuro, com uma faca de cozinha na mão, supondo ser um ladrão da madrugada. Abri a porta rapidamente, como fazem os policiais nos filmes, para pegar de surpresa o gatuno. 
A cama estava totalmente visível, com um brilho azulado, parecendo propaganda de neon. Figuras opacas a circundavam. Era gente baixa e de cabeça grande. Imaginei que não seriam eficientes em uma briga. Quando me viram, um deles apontou alguma coisa para o meu lado. Senti a ideia sumir. Quando voltei da sincope, estava deitado com o rosto no chão, respirando o piso empoeirado. Levantei devagar e quando tomei consciência do que tinha acontecido dei pela falta da cama. Eles a tinham levado. Em minha cabeça já esperava por isso há muito. Nada neste mundo é de graça. E se um móvel mágico aparece em sua vida, fique esperto que ele tem dono e um dia virão pega-lo.Então tinha chegado à hora, justamente quando mais iríamos precisar dela. Voltando a deitar, não consegui mais dormir, pelo stress passado. O dia já pintava de claridade os vãos da cortina da janela. Eliza ressonava suavemente, aludindo uma tranquila paz. Fiquei pensando em minha vida, como acontecia nela coisas repentinas e desagradáveis. Dai somava tudo de bom e de ruim e ao tirar a media, descobria que tinha mais coisa boa. Isso me tirava o mau humor. Uma delas estava ao meu lado, dormindo como um anjo. No café da manhã, contei a ela o que aconteceu. Ficou entre surpresa e irritada e foi até o fundo conferir. Voltou com a cara enfarruscada, vendo o plano se desfazer, como estátua de praia no meio da chuva. Sentou-se a minha frente com desanimo e me olhou nos olhos. Não sabia que era tão ligada a bens materiais. A prova estava ali olhando em sua face transtornada.
----O que faremos agora?
----Nada... Não vamos tentar lutar com uma coisa que parece ser superior a nos. Nem saberíamos por onde começar.
----Realmente... Essa nos perdemos. Mas se descobrir um meio, vou até o fim ---Disse ela parecendo não se conformar com a realidade.
----Mas ainda tem um capitulo para encerrar a novela... ----Disse eu, provocando nela uma cara de surpresa.
----O que é? Sabe o meio de se chegar até eles?De reaver a cama?
----Talvez... Embora desconfie que eles não se importem nem um pouquinho com a gente. Mas ainda temos o controle. Conferi há pouco.
----É mesmo? Então ainda temos alguma chance.
----Duvido... Se quisessem dialogar não me teriam nocauteado. Mas de uma coisa, tenho certeza... Eles irão voltar para pegar o controle.
----Já pensou em acioná-lo para ver o que acontece?Quem sabe traz a cama de volta?---Disse a moça com brilho nos olhos.

----Puxa garota, confesso que ainda não tive essa ideia. Acho que fiquei meio zonzo depois do desmaio.

Literatura - 25.O tálamo..

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Para mim, estava ótimo tudo aquilo. Via na amizade das duas algo cheio de candura e honestidade. À noite, na cama,quando das confabulações que todas as mulheres gostam, Eliza me contava os pormenores da vida de Joice. Passei, a saber, os mínimos detalhes do cotidiano da amiga. Quando víamos algum filme na TV ou algo de interesse, Eliza fazia um jeito de colocar Joice ao meu lado. Não sabia se era para me valorizar, ou no íntimo, não tinha ciúmes da outra. Eu ficava em numa boa e me sentia um sultão entre as duas. Talvez essa fosse à intenção de Eliza. Dentro de algum tempo, Joice precisou viajar para ver a mãe que estava doente. Iria ficar ausente por três dias. Pediu para Eliza ficar olhando a lojinha. Fez uma lista dos produtos a venda e dos respectivos preços, para facilitar a estadia de Eliza como vendedora. Isso para nos foi à grande oportunidade de visitarmos o banco do passado. Na primeira noite, levamos a cama até o local. A loja era na verdade uma casa onde o cômodo da frente fora modificado para se tornar comercio. O lugar calculado para pormos o tálamo seria o segundo cômodo depois da loja, um lugar onde servia de depósito. Subimos na cama mesmo sem o colchão e os forros, e acionei o controle para o tempo marcado. E lá fomos nós. No local era noite também, assim ninguém viu o nosso apuro. O lugar estava calmo e somente uma lâmpada mortiça clareava a ala dos caixas. Infelizmente a cama ficou entre um cômodo e outro. Uma enorme parede passava pelo meio dela e por cima de nossas pernas. Era uma sensação ruim estar com as pernas cimentadas, dentro de uma parede de quarenta centímetros de largura. Parecia que a construção fora feita com a gente dentro. Assim ficamos com o corpo do lado de fora do cofre e as pernas pelo lado de dentro. Eliza ficou branca e antes que tivesse um ataque de pânico, acionei nossa volta rapidamente. Chegamos ofegantes e demos um tempo para pensar melhor. Esperei a moça se acalmar e comecei a fazer os cálculos da mudança de posição do móvel, para ficar todo dentro do cofre. Uma ideia angustiante me ocorreu que, se porventura um dia ficasse com a cabeça presa dentro de uma parede ou coisa parecida, ou a própria mão segurando o controle, estaria perdido. Agitei a cabeça como se jogasse fora as ideias ruins e deduzi que arrastando a cama um metro e meio, ela ficaria totalmente dentro do rico recinto. Eliza já refeita do susto me ajudou a empurrar.

Como a área era pequena, tivemos que colocar a cama em ângulo, com os pés encostados na parede do depósito. Dessa forma, ficou inclinada. Certamente que do lado de lá do tempo, ela ficaria na horizontal. Penduramo-nos no móvel, se agarrando na estrutura da cabeceira e lá fomos novamente. Desta vez correu tudo bem. Sentimos ficar com nossos corpos em nível suavemente. Estávamos dentro do cofre. Começamos sem perda de tempo a vasculhar arquivos e armários. Adverti Eliza que o dinheiro deveria ser ignorado. Depois de algum tempo, encontramos o ouro. Tinha somente algumas joias e três barras pequenas. Fiquei um pouco decepcionado com o achado. Pensava encontrar muito mais. De repente, ouvimos um ruído. Era a porta do cofre sendo aberta. Com a pressa, subimos na cama com a carga preciosa. Ainda deu tempo de ver a frente da porta já aberta, um homenzinho de bigode fino e cabelo ensebado repartido ao meio, com óculos pequenos e redondos, e olhar estupefato. Parece que ficou paralisado ao nos ver por segundos, enquanto desaparecíamos em meio a um clarão. Deveria ser daqueles gerentes que dorme pensando no serviço. Perdeu o sono na madrugada e resolveu ir ate o estabelecimento, dar uma conferida no precioso local de trabalho. Ganha-pão por muitos almejado e só conseguido a duras negociações e influências políticas. Quando chegamos à loja da Joice, caímos da cama, com Eliza rolando por cima de mim, devido à inclinação. Depois de alguns minutos começamos a conferir o saque. Encontramos somente uma barra de ouro. Eliza me deu certeza que tinha carregado tudo.
----Então porque não chegou?---- Perguntei meio irritado
----Como vou saber? O engenheiro é você. ----Respondeu sem vacilar. Comecei a avaliar a situação e deduzi que a inclinação da cama fez as coisas caírem pelo caminho. Alguém no passado teria achado duas barras de ouro e algumas joias, do nada.

----Isso é que se chama de sorte verdadeira. ----Comentei com Eliza. ----A pessoa entra em casa e lá esta duas barras de ouro e joias, ao dispor, sem precisar apostar na loteria suspeita do governo, e nem comprar carnês de estelionatários legalizados.

Literatura - 18.O tálamo...

                                                                       18
Eliza tinha marcado com o homem um encontro para a noite. Chegara o grande dia. Era um domingo e estávamos preparados para cada um encenar o seu papel. Eliza iria fazer a maior e mais difícil parte, que era trazer o individuo para casa. Eu fiquei esperando e na hora prevista para eles chegarem sai para o quintal e fiquei olhando o céu frio e estrelado. Sentei-me ao lado do pequeno tanque de lavar roupa e esperei. Ouvi a fala da moça que vinha chegando. Quando escutei o ruído da fechadura, procurei me esconder melhor e ficar mais atento ao sinal combinado. Ela entrou com o individuo e se dirigiram para o quarto, sempre conversando. Entre amassos e beijos (que eu imaginei)ela o fez sentar-se na cama, tirando inicialmente seu paletó e colocando na cadeira. Em seguida, sugeriu uma bebida e foi até a cozinha. Acendeu a luz, clareando um trecho do pequeno quintal. A luz passava pelo vidro da janela sem cortina, formando um retângulo esticado no chão, lá fora. Quando entrei silenciosamente ela já estava de saída pela porta da rua, e fez um sinal com a cabeça, que tudo estava indo bem. Dali para frente à coisa era comigo. Com a arma na mão entrei no quarto e deparei com o Aristides deitado de costas na cama, bem à vontade, esperando a volta da garota. Quando me viu levou um susto tão grande e sentou-se. Falei baixo e devagar para não assustá-lo muito e provocar algum movimento repentino. Eu mesmo procurando ter muita calma, disse:
----Fique quieto e não saia daí. ---disse apontando o cano para ele.
----O que é isso?----É um assalto?
---Não é não... É apenas uma conversa que há muito tempo gostaria de ter. Fique calmo que nada de ruim acontece.
----A... Eu conheço você...me lembrei .Vai me matar? Olha se eu prejudiquei você, nada foi pessoal. Obedecia ordens.
----Você não me prejudicou... Acabou com a minha vida.
----Olha, sinto muito. Mas somente o despediram da empresa.
---Não... Além disso você também tomou minha mulher. Lembra-se da Beatriz?
---Puxa, mas eu não sabia que era sua mulher. ----Disse fazendo cara de inocente, mas por trás da cortina de seus olhos, um terror crescente, de ser ali eliminado, tomava forma e o desespero já era perceptível, embora ele tentasse disfarçar. Ali estava em minhas mãos o homem que arruinou minha vida. Deveria deixá-lo viver?Uma duvida pairava entre duas ideias em minha cabeça. Que iria fazer?
Apertei o controle e veio o clarão ofuscante. Em segundos, o lugar da cama estava vazio. Agora era só dar um tempo e trazer a cama de volta. Fui até a sala e me sentei. Estava cansado mentalmente e aquilo transferia para o meu corpo todo um marasmo de dores e dificuldade para respirar. Eu não estava satisfeito comigo mesmo. Foi totalmente o contrario do esperado e aconteceu tão depressa. Mas se tivesse deixado ir, certamente ele iria a policia, me denunciar por sequestro. Eliza também se envolveria. Seria um problema geral. Se isso acontecesse, daí era eu e a moça que teríamos um enorme pepino pela frente. Não queria ter envolvimento com a justiça corrupta, onde só quem tem dinheiro se safa. Não... admiti...estava bom daquele jeito. Teria que ser assim mesmo. Mas o que deveria ser uma festa de vitoria e satisfação veio como uma leve agonia e logo traduzi que no fundo de meu ser, não queria causar nenhum mal ao individuo. O ódio que cultivava, sem eu perceber, com o tempo foi-se desgastando e ficando cada vez menor. Ele tinha razão...ser despedido de uma empresa não é o fim do mundo para quem tem garra e coragem. No caso de minha mulher, certamente se não fosse ele, seria outro. E quem me daria certeza que ela já não saia com outros antes dele? Então a culpa era somente dela. Agora tinha percebido que fizera uma coisa tola. Depois de duas horas com esses pensamentos, resolvi trazer a cama de volta, na esperança de ele vir junto. Se ele voltasse iria me desculpar e o despedir de uma forma bem mais nobre do que agira. Mesmo que depois houvesse represália da parte dele. Fui ate o quintal e da janela do quarto, como fizera no episodio das feras, acionei o tálamo de volta. Não poderia me arriscar como de outra vez. A cama voltou só. Fiquei um pouco angustiado e resolvi esperar o desenrolar dos acontecimentos. Dali a pouco Eliza telefonou preocupada. Tinha certa apreensão em suas palavras.
----PG? O que aconteceu!Tudo bem por ai?
----Aqui tudo bem... Nada aconteceu de anormal.
----E o Aristides?
----Depois de uma boa conversa, foi-se embora. ----Tentei justificar sem muito sucesso. Eu percebia na voz e nas palavras dela, uma desconfiança de tudo aquilo.
---- Me esqueci de dizer uma coisa, e não deu tempo mesmo, mas ele deixou o carro na esquina de cima. ---Um frio percorreu minha espinha.

----Está certo... Mas agora isso não tem importância. ---Completei com uma voz, para mim, firme e decisiva. Mas minha cabeça imediatamente começou a elaborar um plano, de tirar o veiculo dali.

Literatura- 7. O tálamo...


                                                       7
Certa noite, no auge de meu declínio, estava eu estirado junto a um muro, semimorto, esperando as longas horas se arrastarem e ganhar um pouco de força para poder andar até minha casa. O frescor da madrugada não amenizava os meus males, nem meus pensamentos, que ansiavam pela morte, clamavam por ela. Minha boca estava amarga e a saliva parecia uma gosma grossa. Se a engolisse poderia correr o risco de me afogar. Meus pés estavam frios e adormecidos e eu não dava a mínima para isso. Se ia morrer, tinha que aparecer os sintomas. Quem sabe era aquele, um deles. No meio daquele transe infindável, apareceu alguém e falou comigo. No principio fiquei surpreso ao ver que alguém falava comigo. Bêbados são entes execráveis. Devo ter falado besteiras, respondendo a coisas que não conseguia entender. Depois, pela persistência, com muito esforço, notei próximo a mim, um vulto feminino em meio à penumbra de meus olhos alcoolizados. Esperava pacientemente que eu tivesse uma reação positiva. Pensando ser a morte, me apossei do pouco de alegria que ainda restava em meu espírito e a cumprimentei com fala enrolada e incompreensível.
----Oh, você e a morte... Que bom que você veio... Estava esperando há um bom tempo... Vai me levar? Tenho passado o inferno... que maravilha dar um jeito em minha situação. Pode me levar para qualquer lugar...ao inferno até. Sabe de uma coisa, o inferno deve ser até melhor do que estou passando nesta vida ingrata. ---Ouvi uma voz feminina, suave e clara responder, enquanto se aproximava mais,se abaixando para falar ao meu ouvido.
----Não sou a morte... Vim apenas ajudá-lo.
----Eu acho que não tenho jeito moça. ----Respondi com a língua enrolada---Sem jeito...Sem jeito, sem solução. Desista.
----Tem sim, é só reagir. ----Dizendo isso ela me pegou por baixo dos braços e como se eu fosse uma pena, me levantou.
Em minha névoa mental, senti aquilo e imaginei que deveria estar bem magro mesmo, ao perceber ela me erguer daquela forma, lépida e firme.




----Vamos para casa. ---Disse ela. Na alta madrugada tinha a impressão que eramos somente nos dois, ali na rua deserta. Parece que fui levado para casa, que ficava distante alguns quarteirões, sem tocar os pés no chão. Mas qual é a impressão que pode ter um bêbado, com a memória deturpada pelo álcool e pela fraqueza de ficar sem se alimentar?Chegamos à casinha,não sei como ela abriu a porta e em seguida, me vi deitado de costas em minha cama. Imediatamente ela me despiu com mãos de fada e me levando ao banheiro , me pôs  em baixo do chuveiro. Ela coordenava tudo e eu apenas deixava ser conduzido para o caminho da salvação. Tinha me levado para casa de forma rápida e sem perguntar onde era. Quem era ela? Eu, me apoiando com as duas mãos no azulejo, sentia a água quente correr apaziguadora pelos ossos aparentes.As mãos da moça, ágeis e macias , manuseavam o sabonete pelo meu corpo arrebentado. Naquela hora, não era um homem. Estava mais para um verme, sujeito ao bem e ao mal. Veio em minha mente uma pergunta que a muito custo consegui transformar em palavras na minha boca.
----Você é o meu anjo da guarda, é?----Não sei de onde veio a ideia.
----Veio me tirar do barco de Caronte?
----Pode ser. ----Disse ela rápida. Depois do banho, me levou ate a cama. Afastou-se por algum tempo. Escutei barulho de utensílios na cozinha, que parecia ser coisa bem distante. Logo ela voltou trazendo um chá. Ergueu minha cabeça e fez engolir. Não senti gosto, apenas um calor purificador correndo garganta abaixo. Me senti melhor. Tempo depois, ela retornou com um mingau. Agora já senti o gosto e o tomei com boa vontade. O dia começava a dar os primeiros sinais com as frestas da janela tornado-se visíveis e um pardal do lado de fora começara a entoar uma sinfonia áspera de uma nota só. Foi aí que ela me disse:
----Agora me vou. E lembre-se... Você tem que reagir, você tem que lutar... Está me entendendo?
----Estou, mas não se vá. Fique mais um tempo comigo.
----Infelizmente não vai dar. Deixei comida pronta para você na geladeira. Quando se levantar, coma de pouco em pouco e devagar. E você tem que me prometer que vai fazer tudo para mudar sua vida e largar do álcool.
---Eu prometo. ----Respondi com convicção, mesmo naquela região que o espírito está meio acordado, meio dormindo. Nesse estado critico, não vi quando ela se foi. Como uma brisa passageira, sem deixar rastro nem cheiro ela sumiu. Quando acordei definitivamente, o dia já estava terminando, mas um faixo de luz amarelada do sol, ainda atravessava a pequena veneziana do quarto, atingindo a parede do lado oposto em forma de um pequeno circulo iluminado.

Era tempo de recomeçar, de reagir... Pensei comigo, com muita má vontade.